Quando eu era pequenina comia-se chocolate uma vez por ano. Era normalmente em Agosto, no tempo em que os vizinhos emigrantes vinham passar as férias e o traziam. Chocolates e caramelos de nata, que se colavam aos dentes e eram tão bons! Às vezes traziam roupa e alguma ia ter lá a casa. Diz que eram "as patroas" que a davam. Roupa colorida e perfumada. Há dias um perfume qualquer evocou-me esses dias e eu pensei "cheira a França". Eu tinha três irmãos. Não conhecíamos o "é meu". Era sempre tudo nosso, tudo a dividir por quatro. Era bonito isso, eu acho. Uma vez a minha mãe mandou-me dar um recado a uma vizinha emigrante, e a vizinha deu-me uma tablete de chocolate inteirinha, grande! Grande eram 100 gramas. Eu estava sozinha, ninguém sabia, podia tê-la guardado toda para mim. Mas havia aquele "a dividir por quatro" na minha cabeça. Hoje comi sozinha um Crunch e lembrei-me desse tempo. E do cheiro das bonecas (tive duas) que eu sei exactamente qual é, um cheiro doce e novo e limpo, um cheiro tão reconfortante... nunca conseguimos explicar os nossos "cheiros", e é por isso, por serem tão nossos, que nos fazem felizes.
Um dia, já eu andava na escola na vila, naquilo a que então se chamava o "ciclo preparatório" teria uns 10 ou 11 anos, um amigo dos meus pais levou-me a um café e comprou-me um chocolate. Um "Coma com Pão". Comi-o sem pão. Sozinha, porque aí já as coisas tinham mudado um pouco, já havia coisas minhas. Lembro-me ainda da surpresa imensa e da gratidão. O valor que eu dava a estas coisas. E hoje, em meia hora, enquanto vagueava no facebook, comi 100 gramas de chocolate. Se eu fosse ainda menina, saberia agradecê-lo. A mim própria talvez, à vida, ao meu trabalho.
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quarta-feira, março 19, 2014
sexta-feira, novembro 08, 2013
Dos dias que têm passado
Têm sido intensos e confusos. Alguns dias na minha aldeia, a fazer companhia à minha mãe, recém-operada.
Próxima de Deus como já não me lembro. A caminho de casa, no outro dia, a sensação quase certeza de que tudo isto, o nosso mundo, está por um fio, mas que o Papá nos sustém nas suas mãos criadoras e amorosas, e que é possível estar BEM. A minha mãe deixei-a hoje no hospital, internada, como nova infecção. Contente por ir dormir enquanto lhe injectavam antibiótico, ela que não dormira nada na véspera. Nem eu.
O meu carro a pedir urgentemente conserto. E eu, que escorrego sem querer das mãos de Deus, eu a pedir concerto.
Ontem fiz bolo de bolacha com o meu amado sobrinho Vasco.
Ontem jantei "arroz de coisas" com os meus traquinas e lindos e queridos sobrinhos Tomás e Mateus, que antes se ocuparam a fazer de mim trampolim do sofá para o chão.
Hoje já me senti injustiçada e desamada, desconsiderada por alguém que era suposto amar-me, até por laços consanguíneos. E talvez esse alguém até me ame. Hoje já sorri, hoje já cantei, hoje já chorei. Hoje já tive a prova de solidariedade de uma amiga. Se provas fossem precisas.
Hoje já me angustiei com a angústia de um namorado, que a vida e este país de merdas e falências provavelmente vai levar para longe de mim, precisamente quando eu queria tanto estar perto e conhecê-lo. Deitada na banheira, num banho de imersão, pensei que eu não conheço os caminhos de Deus, que sigo às escuras, mas que ele me leva pela mão.
E agora, deitada na minha cama, de lágrimas no rosto, espero o sono que há-de embalar-me e dou à gata Nuvem o mimo raro de dormir na minha cama. Coitada, nestes dias ela sentiu a minha falta. Às vezes eu desejava que os humanos falassem a linguagem transparente dos bichos.
Próxima de Deus como já não me lembro. A caminho de casa, no outro dia, a sensação quase certeza de que tudo isto, o nosso mundo, está por um fio, mas que o Papá nos sustém nas suas mãos criadoras e amorosas, e que é possível estar BEM. A minha mãe deixei-a hoje no hospital, internada, como nova infecção. Contente por ir dormir enquanto lhe injectavam antibiótico, ela que não dormira nada na véspera. Nem eu.
O meu carro a pedir urgentemente conserto. E eu, que escorrego sem querer das mãos de Deus, eu a pedir concerto.
Ontem fiz bolo de bolacha com o meu amado sobrinho Vasco.
Ontem jantei "arroz de coisas" com os meus traquinas e lindos e queridos sobrinhos Tomás e Mateus, que antes se ocuparam a fazer de mim trampolim do sofá para o chão.
Hoje já me senti injustiçada e desamada, desconsiderada por alguém que era suposto amar-me, até por laços consanguíneos. E talvez esse alguém até me ame. Hoje já sorri, hoje já cantei, hoje já chorei. Hoje já tive a prova de solidariedade de uma amiga. Se provas fossem precisas.
Hoje já me angustiei com a angústia de um namorado, que a vida e este país de merdas e falências provavelmente vai levar para longe de mim, precisamente quando eu queria tanto estar perto e conhecê-lo. Deitada na banheira, num banho de imersão, pensei que eu não conheço os caminhos de Deus, que sigo às escuras, mas que ele me leva pela mão.
E agora, deitada na minha cama, de lágrimas no rosto, espero o sono que há-de embalar-me e dou à gata Nuvem o mimo raro de dormir na minha cama. Coitada, nestes dias ela sentiu a minha falta. Às vezes eu desejava que os humanos falassem a linguagem transparente dos bichos.
quarta-feira, agosto 03, 2011
Na aldeia
Na aldeia havia hoje muitos emigrantes, de férias au Portugal. Como gosto deles, gostei de os rever. Um ano, às vezes mais, às vezes muito mais, e o afecto, a camaradagem continuam.
Os sobrinhos Diogo e Vasco ofereceram-me uma pulseira, vinda de Espanha para mim, por iniciativa deles. (Comove-me ter sobrinhos (pré-)adolescentes que são já tão independentes e continuam a gostar de mim como quando eram meninos pequenos...)
Depois levei um livro de histórias aos sobrinhos mais novos, e estive a ler-lhas e a ver com eles as ilustrações, sentada ao sol do fim de tarde, com os campos verdes por companhia. (Comove-me ter sobrinhos pequenos que me incluem nas suas brincadeiras e me recebem sempre com um abraço...)
Venho cheia de mimo recebido, hoje. E continuo a ansiar pelas férias... of course, my horse - ensinou-me há muitos anos, mais de trinta, a minha professora de inglês. Bem sei, bem sei que havia outras coisas que devia ter aprendido assim com tanto afinco, não somente os disparates tontos, mas Tontice é o meu nome do meio.
Também levei a minha mãe a visitar uma amiga num lar de terceira idade - um dos lares que eu conheço em que se vêem de facto os velhotes cuidados e acarinhados... nada daqueles depósitos de velhos onde há só cabeças baixas e cheiro a urina.
Quando a minha mãe disse, a propósito da velhice, que sentia às vezes o corpo a arquear "e assim como se quisesse inclinar-se para a frente", só me ocorreu aquele poemazinho que aprendi na escola primária:
A torre de Pisa,
em Itália,
como qualquer torre,
não fala.
Mas inclina-se para a frente e cumprimenta a gente.
Não é como a torre de Belém que não cumprimenta ninguém.
Depois dizem-me que sou uma criança traquina num corpo adulto. Tem dias...
Os sobrinhos Diogo e Vasco ofereceram-me uma pulseira, vinda de Espanha para mim, por iniciativa deles. (Comove-me ter sobrinhos (pré-)adolescentes que são já tão independentes e continuam a gostar de mim como quando eram meninos pequenos...)
Depois levei um livro de histórias aos sobrinhos mais novos, e estive a ler-lhas e a ver com eles as ilustrações, sentada ao sol do fim de tarde, com os campos verdes por companhia. (Comove-me ter sobrinhos pequenos que me incluem nas suas brincadeiras e me recebem sempre com um abraço...)
Venho cheia de mimo recebido, hoje. E continuo a ansiar pelas férias... of course, my horse - ensinou-me há muitos anos, mais de trinta, a minha professora de inglês. Bem sei, bem sei que havia outras coisas que devia ter aprendido assim com tanto afinco, não somente os disparates tontos, mas Tontice é o meu nome do meio.
Também levei a minha mãe a visitar uma amiga num lar de terceira idade - um dos lares que eu conheço em que se vêem de facto os velhotes cuidados e acarinhados... nada daqueles depósitos de velhos onde há só cabeças baixas e cheiro a urina.
Quando a minha mãe disse, a propósito da velhice, que sentia às vezes o corpo a arquear "e assim como se quisesse inclinar-se para a frente", só me ocorreu aquele poemazinho que aprendi na escola primária:
A torre de Pisa,
em Itália,
como qualquer torre,
não fala.
Mas inclina-se para a frente e cumprimenta a gente.
Não é como a torre de Belém que não cumprimenta ninguém.
Depois dizem-me que sou uma criança traquina num corpo adulto. Tem dias...
quinta-feira, janeiro 21, 2010
Em diferido
Sozinha, entregue a mim própria na minha aldeia, sem computador, sem net, sem..., tive saudades de escrever. Fui à loja comprar um caderno piroso (o menos piroso de todos os que lá estavam, ainda assim) e uma caneta de ponta fina. Deitei-me no jardinzinho em frente à igreja para fotografar pinhas e trevos. Assim estive uns minutos, eu e a minha máquina, próxima do cheiro da terra, próxima de mim. Quando me levantei para me dirigir ao carro (Escrevo estas linhas sentada ao volante, o carro parado, claro, o carro parado.) reparei em alguém que reparava em mim. Não deve ser comum ver-se uma mulher adulta deitada na relva a fotografar. Não tenho qualquer interesse em ser comum, e nem sequer também me interessa ser diferente. Apenas não me interessa.
Queria tanto uma lente para a máquina, uma lente que me permitisse captar bem as coisas minúsculas e lindas que os meus olhos vêem!... (Com calma, lá chegaremos.)
Cheiro as folhas em branco do meu caderno piroso. Cheira tão bem, o papel novo dos inícios de ano lectivo, dos inícios das coisas, dos recomeços de mim!
E de repente, lembro-me da Carla - "Já tiveste uma letra mais bonita."
- Já sei -digo-lhe. - E a memória da voz da Maria: Mas escrevo!
Ponho a chave na ignição, ligo a música, ligo o carro, vou ver se vejo os meus sobrinhos.
(Vi-os)
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