É meu irmão. Vive do outro lado da dor, no reino da luz, onde o tempo não conta. Faria hoje 44 anos. Tem 24, a idade com que ficou na nossa memória. Ó meu irmão feito saudade aqui, aproveita agora a tua plena liberdade e lembra-te de nós.
É meu pai. Faz hoje 82 anos. Vive num estado entre luz e trevas que não conseguimos penetrar. Acamado, tanto nos olha e parece reconhecer, como nos desconhece ou ignora. Manifesta contudo as suas preferências por uma ou outra funcionária do lar onde está, com grandes sorrisos infantis e sem dentes. É a criança velha que eu nunca conheci. É um pai novo, longe da austeridade que sempre teve. Não sei se "parabéns" se aplica, pai. Não sei se nessa forma de ser quase vegetal faz algum sentido dizer-te parabéns. Costumavas somar a tua idade à idade do A. e dizer "hoje fazemos x anos!". Pois bem, como já não sabes fazer contas, eu digo-te: hoje tu e o teu filho fazem 126 anos.
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quarta-feira, janeiro 22, 2014
sexta-feira, novembro 08, 2013
Dos dias que têm passado
Têm sido intensos e confusos. Alguns dias na minha aldeia, a fazer companhia à minha mãe, recém-operada.
Próxima de Deus como já não me lembro. A caminho de casa, no outro dia, a sensação quase certeza de que tudo isto, o nosso mundo, está por um fio, mas que o Papá nos sustém nas suas mãos criadoras e amorosas, e que é possível estar BEM. A minha mãe deixei-a hoje no hospital, internada, como nova infecção. Contente por ir dormir enquanto lhe injectavam antibiótico, ela que não dormira nada na véspera. Nem eu.
O meu carro a pedir urgentemente conserto. E eu, que escorrego sem querer das mãos de Deus, eu a pedir concerto.
Ontem fiz bolo de bolacha com o meu amado sobrinho Vasco.
Ontem jantei "arroz de coisas" com os meus traquinas e lindos e queridos sobrinhos Tomás e Mateus, que antes se ocuparam a fazer de mim trampolim do sofá para o chão.
Hoje já me senti injustiçada e desamada, desconsiderada por alguém que era suposto amar-me, até por laços consanguíneos. E talvez esse alguém até me ame. Hoje já sorri, hoje já cantei, hoje já chorei. Hoje já tive a prova de solidariedade de uma amiga. Se provas fossem precisas.
Hoje já me angustiei com a angústia de um namorado, que a vida e este país de merdas e falências provavelmente vai levar para longe de mim, precisamente quando eu queria tanto estar perto e conhecê-lo. Deitada na banheira, num banho de imersão, pensei que eu não conheço os caminhos de Deus, que sigo às escuras, mas que ele me leva pela mão.
E agora, deitada na minha cama, de lágrimas no rosto, espero o sono que há-de embalar-me e dou à gata Nuvem o mimo raro de dormir na minha cama. Coitada, nestes dias ela sentiu a minha falta. Às vezes eu desejava que os humanos falassem a linguagem transparente dos bichos.
Próxima de Deus como já não me lembro. A caminho de casa, no outro dia, a sensação quase certeza de que tudo isto, o nosso mundo, está por um fio, mas que o Papá nos sustém nas suas mãos criadoras e amorosas, e que é possível estar BEM. A minha mãe deixei-a hoje no hospital, internada, como nova infecção. Contente por ir dormir enquanto lhe injectavam antibiótico, ela que não dormira nada na véspera. Nem eu.
O meu carro a pedir urgentemente conserto. E eu, que escorrego sem querer das mãos de Deus, eu a pedir concerto.
Ontem fiz bolo de bolacha com o meu amado sobrinho Vasco.
Ontem jantei "arroz de coisas" com os meus traquinas e lindos e queridos sobrinhos Tomás e Mateus, que antes se ocuparam a fazer de mim trampolim do sofá para o chão.
Hoje já me senti injustiçada e desamada, desconsiderada por alguém que era suposto amar-me, até por laços consanguíneos. E talvez esse alguém até me ame. Hoje já sorri, hoje já cantei, hoje já chorei. Hoje já tive a prova de solidariedade de uma amiga. Se provas fossem precisas.
Hoje já me angustiei com a angústia de um namorado, que a vida e este país de merdas e falências provavelmente vai levar para longe de mim, precisamente quando eu queria tanto estar perto e conhecê-lo. Deitada na banheira, num banho de imersão, pensei que eu não conheço os caminhos de Deus, que sigo às escuras, mas que ele me leva pela mão.
E agora, deitada na minha cama, de lágrimas no rosto, espero o sono que há-de embalar-me e dou à gata Nuvem o mimo raro de dormir na minha cama. Coitada, nestes dias ela sentiu a minha falta. Às vezes eu desejava que os humanos falassem a linguagem transparente dos bichos.
quarta-feira, agosto 22, 2012
terça-feira, abril 03, 2012
Para ti
Hoje lembrei-me muito de ti. Desde aquela fotografia na escola primária, com uma folha de desenhos à frente, um grande sorriso e o casaco de malha feito pela mãe.
E ainda aquelas fotos mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!
E ainda aquelas fotos mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!
segunda-feira, julho 11, 2011
A super-avozinha
É assim que é conhecida a minha mãe, lá na aldeia, pelos garotos da escola primária. Acho imensa piada, e registo-o aqui para não me esquecer. A minha mãe tem 74 anos e pedala que se farta na sua bicicleta por aquelas ruas fora. É uma mulher cheia de energia, que entretanto tem ficado magrinha e pequenina... Uma mulher cheia duma energia que lhe vem também da necessidade de cuidar dum marido doente e rabugento q.b., o meu pai...
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