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terça-feira, abril 03, 2012

Para ti

Hoje lembrei-me muito de ti. Desde aquela fotografia na escola primária, com uma folha de desenhos à frente, um grande sorriso e o casaco de malha feito pela mãe.
E ainda aquelas fotos  mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa  a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!

quarta-feira, novembro 09, 2011

O Beato Salu.

http://www.facebook.com/salubeato?sk=wall

Hoje encontrei na net uma página dele. Fiquei contente como se o tivesse reencontrado! Uma personagem dos meus tempos de estudante em Évora, com quem nunca troquei mais do que um cumprimento e um sorriso, e que contudo me marcou tanto que, vinte anos depois, me alegra ver a sua fotografia!

segunda-feira, abril 11, 2011

Das fotografias do antigamente, das tralhas inúteis e da vida.

As casas onde escolho viver têm todas uma grande tendência para a desarrumação, que eu combato de tempos a tempos. Hoje foi tempo. É tempo. As tralhas que eu acumulo, meu Deus! Coisas de que me esqueço em recantos insuspeitos, em esconderijos com que a minha casa me surpreende. Coisas que sou obrigada a concluir que não me fazem falta nenhuma, porquanto me esqueço delas durante longos períodos.
Hoje encontrei coisas antigas cheia de pó - o pó tem um certo charme, porque confere aos objectos uma aura de passado remoto que nos convida à nostalgia, e a nostalgia é poética. E fotografias. Muitas fotografias dos tempos em que não havia máquinas digitais. E cartas de amigos, e outras de pessoas que já tenho que me esforçar para saber quem foram.
Às vezes imagino que no final da minha vida Deus me mostrará, qual Teresa Guilherme no Big Brother, as cenas da minha vida, e talvez até eu conclua que nem estive assim tão mal, que o encanto das histórias dos filmes é uma questão de banda sonora. As fotografias antigas remetem-me para esse show futuro dos meus delírios. E por isso de certa forma concluo que arrumar a casa tem a sua poesia.

Enquanto arrumava a casa, abri a porta para deixar entrar o sol. Passou o vizinho do lado que se meteu com as gatas e esteve um pouco a conversar comigo. Perguntei-lhe pela esposa, que está internada em Coimbra. Nos cuidados paliativos, disse ele.
E fico a pensar na p***a da vida, no sofrimento e no fim, e sobre isto calo-me, porque não me ocorre nada de inteligente.

E quando és tu a errar (muito)?

Tenho passado um longo período a descrer dos outros, a proteger-me de quem me faz mal, ou me quer mal, e ontem descobri que tenho sido muito...