Na sala de estar do lar do idosos, estava sentada a ler uma senhora que teria seguramente os seus oitenta e cinco anos, se não mais. Lia um livro de título "África, um grande amor". Perguntei-lhe se tinha vivido em África, disse-me que não, que o livro lhe tinha sido oferecido por uma amiga. Uma senhora cheia de vida e aparentemente saudável.
De conversa em conversa, chegámos às instituições de apoio aos mais carenciados. Porque a senhora conhecia de outros tempos instituições que eu conheço agora, ligadas à Igreja Católica, mas agora "geridas" por assistentes sociais. (Não sei se "geridas" é o termo certo.)
A senhora disse-me que as "irmãs" e ela própria não gostavam muito de assistentes sociais. Era tudo muito rigoroso, muito organizado, "se faltava uma moeda na caixa já era um bico de obra"... Elas gostavam de ajudar conforme podiam. "Tínhamos os nossos pobres, que visitávamos e apoiávamos."
Esta expressão, "os nossos pobres" é que me pôs a pensar. "Os nossos pobres" como "os nossos bibelôs" ou assim... Como se as famílias carenciadas fossem uma espécie de brinquedos das freiras, que podiam a seu bel prazer cuidar, talvez fazer penteados, vestir, lavar, dar vacinas nas pernas, como eu fazia em menina às minhas bonecas - tive duas, em toda a minha infância, que mas trouxeram uns familiares. Os meus pais não eram muito de dar brinquedos, suponho também que não podiam. - Espetava as bonecas nas nádegas, nas ancas e nos braços, com bicos de caneta. Ainda hoje lá estão, todas furadas. Um delas está também maquilhada com uma sombra azul escura de caneta de feltro. Há quarenta anos e não há desmaquilhante que lhe valha.
"Os nossos pobres" lembrou-me isso, pessoas brinquedos, pessoas coisas, que alimentavam a sede de brincar aos bons das "irmãzinhas".
Eu ainda disse à senhora que à partida queremos que os nossos impostos sirvam para dar dignidade humana a quem nada tem, ou pouco. E que era isso que faziam os assistentes sociais, ajudar a erguer-se quem, por falta de condições financeiras ou outras, não conseguia erguer-se por si. Mas a velhota que não, que os impostos são só para engordar os bolsos dos políticos (terá alguma razão, infelizmente). Mas via-se que aquela senhora, sentada na sua poltrona, tinha saudades dos seus pobrezinhos.
terça-feira, março 12, 2013
segunda-feira, março 11, 2013
Recobro
Eu já devia saber. É aqui que volto sempre, é este o blogue que é a minha casa de areia e vento, abraços, lágrimas, ternura...
O meu blogue-fénix renasceu dos seus próprios destroços, encontra-se ainda combalido, mas dorme um soninho reparador aqui mesmo ao meu lado. Velo por ele, como tantas vezes ele vela por mim.
quinta-feira, janeiro 03, 2013
Ano novo, fim de blogue velho.
Pois foi, este blogue atirou-se da janela às doze badaladas da meia noite de 2012. Escaqueirou-se todo. Quanto a mim foi um prazer conviver com vocês. Um dia destes, um mês destes, ou talvez nunca, recomeço noutro lugar. Foi bom, mas acabou-se.
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Por muitas e (a)variadas circunstâncias, desta vez externas, a minha cabeça tem andado conturbada e o meu coração triste. Hoje, pela primeira vez em longos dias, tive vontade de cantar (e cantei). Celebro esta pequenina alegria que volta e uma reconciliação que consegui ontem com alguém que me é especial. Acredito que uma coisa não seja alheia a outra.
terça-feira, novembro 27, 2012
sábado, novembro 03, 2012
Destes dias.
A apatia é uma enorme ave cinzenta que vem por bem. Pousa no meu ombro para me abrigar, como uma sombra me abriga do calor excessivo. Como se fosse uma cortina que me impedisse de ver uma paisagem muito triste. O único problema da ave Apatia é que é enorme. Abre as asas para me proteger e tira-me a luz e a respiração.
quinta-feira, novembro 01, 2012
Ressalva
As histórias que às vezes conto de que como a pobreza e a tristeza dos outros me comove, e do que faço por eles, não as conto para me vangloriar da minha generosidade e bom coração. Acho que sim, sou generosa e tenho um bom íntimo (porquê não me reconhecer algumas qualidades?), mas o que eu faço é apenas o que o instinto me dita naqueles momentos. Não faço nada de extraordinário, apenas reajo a coisas que me perturbam. Reajo como posso. Se partilho estas histórias é apenas porque elas mexem comigo. Agora o que verdadeiramente me anima, por exemplo em relação àquela velhinha lá em Lisboa, de que falei num dos posts anteriores, é saber que se geram ondas de boa vontade, que há muita gente que se compadece e que gosta de partilhar o que tem. Todos juntos poderíamos mudar o mundo!
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