terça-feira, novembro 27, 2012
sábado, novembro 03, 2012
Destes dias.
A apatia é uma enorme ave cinzenta que vem por bem. Pousa no meu ombro para me abrigar, como uma sombra me abriga do calor excessivo. Como se fosse uma cortina que me impedisse de ver uma paisagem muito triste. O único problema da ave Apatia é que é enorme. Abre as asas para me proteger e tira-me a luz e a respiração.
quinta-feira, novembro 01, 2012
Ressalva
As histórias que às vezes conto de que como a pobreza e a tristeza dos outros me comove, e do que faço por eles, não as conto para me vangloriar da minha generosidade e bom coração. Acho que sim, sou generosa e tenho um bom íntimo (porquê não me reconhecer algumas qualidades?), mas o que eu faço é apenas o que o instinto me dita naqueles momentos. Não faço nada de extraordinário, apenas reajo a coisas que me perturbam. Reajo como posso. Se partilho estas histórias é apenas porque elas mexem comigo. Agora o que verdadeiramente me anima, por exemplo em relação àquela velhinha lá em Lisboa, de que falei num dos posts anteriores, é saber que se geram ondas de boa vontade, que há muita gente que se compadece e que gosta de partilhar o que tem. Todos juntos poderíamos mudar o mundo!
terça-feira, outubro 30, 2012
Parfois
Às vezes vem uma onda de sensibilidade que me afoga. Não é tristeza, mas traz tristeza. Olhar para este mundo e querer que ele fosse tão melhor. Olhar para mim e querer-me melhor.
E também ter a noção de que me exponho ao perigo ( a perigos) simplesmente por agir sob impulso e querer mudar o mundo. Tenho 46 anos e ainda sonho mudar o mundo.
E depois uma sensação de quase loucura, de não pertencer aqui, de que me depositaram num planeta estranho.
Doloroso.
E também ter a noção de que me exponho ao perigo ( a perigos) simplesmente por agir sob impulso e querer mudar o mundo. Tenho 46 anos e ainda sonho mudar o mundo.
E depois uma sensação de quase loucura, de não pertencer aqui, de que me depositaram num planeta estranho.
Doloroso.
domingo, outubro 28, 2012
Mas ainda há esperança
Ela parecia um cão vadio em versão humana. Velhinha. Pequenina. Com uns chinelos horrorosos e os pés gelados (toda ela gelada), os pés calejados como nunca vi. Estava em frente à estação do Oriente (Lisboa), virada para o lado do Centro Comercial Vasco da Gama. Tinha um qualquer problema de dicção. Pedia um moeda. Olhos infinitamente tristes. "Venha comigo tomar o pequeno almoço ao café"- disse-lhe eu. "Fica mais reconfortada e escusa de estar aqui ao frio." E ela veio, pequenina, quase debaixo do meu braço. As meninas do café ofereceram-lhe uma fatia de bolo, e acabámos por lhe embrulhar o queque que eu lhe tinha pago para acompanhar a meia de leite quentinha. Chorava de mansinho. Enxuguei-lhe as lágrimas. Fomos ao Continente ver as promoções, comprar-lhe umas botas quentinhas, umas peúgas e um casaco impermeável. Escolhido a dedo, do mais barato, mas que a aquecesse. Ainda lhe dei um cachecol de malha que tinha na minha mala de viagem. Sabe-se lá porque é que o pus lá, porque tinha roupa mais que suficiente para me agasalhar. Na fila do supermercado, para pagar, veio uma senhora dizer que fazia questão de me dar cinco euros para ajudar na despesa. Aceitei, claro, e agradeci.
Já disse onde ela estava. Se a virem por lá, nos próximos dias, tratem-na bem, dêem-lhe qualquer coisa que não vos faça falta. Ou que faça um bocadinho. É bom partilhar as faltas. E eu já sei onde vou poupar os pouco mais de vinte euros que gastei com ela.
Porque ninguém devia chegar a velho assim. Como um cão abandonado, com o olhar dos cães abandonados. De livre vontade houve pessoas comuns que me ajudaram a ajudá-la e é isso que me dá esperança. E agora já sei porque os carros dos senhores políticos importantes têm que ter vidros fumados e andar depressa. Eles são sensíveis e não podem ver a miséria.
Já disse onde ela estava. Se a virem por lá, nos próximos dias, tratem-na bem, dêem-lhe qualquer coisa que não vos faça falta. Ou que faça um bocadinho. É bom partilhar as faltas. E eu já sei onde vou poupar os pouco mais de vinte euros que gastei com ela.
Porque ninguém devia chegar a velho assim. Como um cão abandonado, com o olhar dos cães abandonados. De livre vontade houve pessoas comuns que me ajudaram a ajudá-la e é isso que me dá esperança. E agora já sei porque os carros dos senhores políticos importantes têm que ter vidros fumados e andar depressa. Eles são sensíveis e não podem ver a miséria.
quinta-feira, outubro 25, 2012
:(
Hoje uma amiga encheu-me de tristeza.
Anda tomar um café, disse-lhe eu. E fomos. Que olhar tão triste, V.! E contou-me que ia provavelmente ter que declarar falência do seu negócio, que o marido, que até ganhava bem, deixara de receber. "Medo de perder o que é meu", disse-me ela. E que, no meio das contas que se avolumam, até conseguir tirar dinheiro para sustentar a família de 5 elementos ia ficando complicado. E eu fiquei a olhar para ela. Queria tanto poder ter-lhe dito: "Não te preocupes, eu ajudo-te." A verdade é que não tenho nada (ou muito pouco) para dar.
Disse-lhe apenas: "É uma fase. Vais ultrapassar isso." (E vai, porque o marido vai começar a trabalhar para outra firma, e tendo ele ordenado, as coisas melhorarão significativamente.)
Este é apenas um caso. Um dos milhares. Dói-me mais este, porque ela é minha amiga. E quando penso nas frotas de carros do governo, e do PS, e do raio que os parta, nas reformas milionárias que se acumulam com ordenados, e nas muitas outras desonestidades de que nada percebo, sei que vivo num país governado por assassinos, e não sei que ganas me dão.
Anda tomar um café, disse-lhe eu. E fomos. Que olhar tão triste, V.! E contou-me que ia provavelmente ter que declarar falência do seu negócio, que o marido, que até ganhava bem, deixara de receber. "Medo de perder o que é meu", disse-me ela. E que, no meio das contas que se avolumam, até conseguir tirar dinheiro para sustentar a família de 5 elementos ia ficando complicado. E eu fiquei a olhar para ela. Queria tanto poder ter-lhe dito: "Não te preocupes, eu ajudo-te." A verdade é que não tenho nada (ou muito pouco) para dar.
Disse-lhe apenas: "É uma fase. Vais ultrapassar isso." (E vai, porque o marido vai começar a trabalhar para outra firma, e tendo ele ordenado, as coisas melhorarão significativamente.)
Este é apenas um caso. Um dos milhares. Dói-me mais este, porque ela é minha amiga. E quando penso nas frotas de carros do governo, e do PS, e do raio que os parta, nas reformas milionárias que se acumulam com ordenados, e nas muitas outras desonestidades de que nada percebo, sei que vivo num país governado por assassinos, e não sei que ganas me dão.
quarta-feira, outubro 24, 2012
Pegar num enorme e resistente saco do lixo e ir enchendo: coisas, mais coisas e mais coisas que fui acumulando e que não me servem para nada. Muita treta, muito lixo. O que significa que a minha passagem pelo mundo é bastante poluente.
Em contrapartida, o mundo também me polui bastante. Cheguei com uma alma clarinha e pura, podia passar-se o algodão, o tal que não engana, não havia em mim ponta de maldade. Todos nascemos assim. Pois, eu estou cheia de pó, desse pó de que nenhum banho me liberta. E lá no fundo, lutando e sobrevivendo, a pureza dos primeiros dias.
E a casa, a casa edifício, a acusar a face caótica de quem a habita. Casa queixinhas!
Em contrapartida, o mundo também me polui bastante. Cheguei com uma alma clarinha e pura, podia passar-se o algodão, o tal que não engana, não havia em mim ponta de maldade. Todos nascemos assim. Pois, eu estou cheia de pó, desse pó de que nenhum banho me liberta. E lá no fundo, lutando e sobrevivendo, a pureza dos primeiros dias.
E a casa, a casa edifício, a acusar a face caótica de quem a habita. Casa queixinhas!
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