terça-feira, março 20, 2012

"Se ao que busco saber nenhum de vós responde..." *

Sou mais feliz na ignorância. Cada pequena notícia deste pequeno país deste minúsculo mundo, cada douta opinião de quem sabe tudo sobre as causas dos nossos males e diz que "eu bem vos disse", mas não apresenta solução nenhuma, apenas aponta um caminho negro cheio de cadáveres e diz "é por aqui"... cada gota deste mar de informação me baralha e me angustia por uma semana. Eu ainda quero ser feliz, porra! Digam-me assim "faz isto que isto ajuda!" Se eu não posso ajudar, deixem-me em paz. Olhos atentos para os que se cruzam comigo, coração e ajuda (toda a que eu possa) disponível para eles. Para o resto: areia, cabeça, avestruz. E já me disseram que afinal as avestruzes não enterram a cabeça na areia. Desiludi-me com elas, a sério!


* José Régio

sexta-feira, março 16, 2012

Sou uma mentirosa

Aqui estou eu.

Sejam-me sinceros: interessam-vos alguma coisa as reflexões que para aqui debito?
Para mim, interessam, claro. Mas pergunto-me se não interessarão apenas a mim. O que não invalidaria que as escrevesse, escrevo o que quero, onde quero, e o que não falta são senhores e senhoras, que se julgam doutos, a dizerem e a escreverem coisas sem nenhum interesse. Mas é só para saber.

segunda-feira, março 12, 2012

Precisada de mim.

Não sei por quanto tempo, não escreverei nada aqui. Ando a precisar de escrever sem filtros coisas que se agitam no meu coração e só eu posso ouvir. Comprei um diário.

See you later, aligator!

quarta-feira, março 07, 2012

Daqui a umas horas terão passado quarenta e seis anos sobre o dia em que nasci.


E nem sei o que diga sobre isso, tanto tempo que quarenta e seis anos me parece, e tão pouco sabedora da vida que me encontro.

segunda-feira, março 05, 2012

Macacos no sótão

Passei uns dias muito felizes em Lisboa, dias cheios de amigos, fotos, rio, crianças e boa comidinha...
Pelo meio tive a infeliz ideia de ir ao Jardim Zoológico, onde tinha ido apenas quando era uma criança de seis anos... Não vou falar sequer do exorbitante preço do bilhete, que foi o preço que paguei por uma profunda perturbação e tristeza. Primeiro foram os bisontes, pacaças e o diabo a sete, em quintalitos apertados, rodeados dos próprios excrementos. Excrementos originais, alguns deles, os dos bisontes eram particularmente desenhados - o bisonte não tem uma tripa qualquer, tem tripas que moldam a m... como se plasticina fosse. Sim, ando particularmente atenta a excrementos, desde que li com os meus sobrinhos pequenos a história d' A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça. Querida toupeira, se tivesse sido um bisonte terias um chapéuzinho mais artístico....

O pior veio depois. O pior foram os macacos. Macacos aranhas, dizia a tabuleta. Um deus cruel pôs-me diante dos olhos um espelho convexo, e disse: Olha bem. Estes são vocês, os humanos. São brinquedos meus com que me divirto por toda a eternidade, nesta espécie de pista vos movimento como quero, e julgam vocês que são autónomos... Repara, porque é de ti que se trata. Sem alma, sem pudor, sem horas nem dias nem objectivos... Carregando os filhos às costas, defendendo cada um o seu pedaço de laranja, levando a comida à boca com essa mãozinhas peludas.... Grotescas imagens as vossas. Divertidas. Apenas bichos sem pudor nem espiritualidade alguma.
Assim gritou para dentro do meu cérebro aquele deus estúpido. Impossível ignorá-lo. "Sem pudor", repetia o eco dentro da minha cabeça. Não soube precisar quais seriam os machos e quais as fêmeas, vi umas pendurezas muito penduradas que não pareciam isso. Hoje o pai Google explicou-me que não é fácil à primeira distingui-los, porque as fêmeas têm clitóris assim exibicionistas. Terão elas o tal complexo de castração de que falava Freud?
Quis sair do zoo o quanto antes, mas aquilo era labiríntico. Ignorei vales de tigres e não sei que mais, e quando finalmente consegui sair, eu era uma menina desorientada e triste. Perdida, literalmente perdida, porque nem sequer sabia o caminho para a estação de comboios que havia de levar-me à pensão e a um banho de água quente. Mas nem o banho me aqueceu a alma. Eu supostamente não teria alma, mas ela chorava dentro de mim, desalentada.
Horas mais tarde, de regresso de um jantar em casa de amigos, sentindo-me quase louca, desabafei com a Sara, que veio trazer-me a casa. E ela ajudou-me muito, porque me ajudou a pôr em palavras isto que agora consigo escrever. Antes era apenas um emaranhado de soluços, inaudíveis do lado de fora do meu coração.
Quando me deitei, minutos depois de me despedir da minha amiga, eu disse ao deusito ranhoso: Não quero mais conversas contigo.
Chamei o meu Deus para junto de mim, e Ele disse que tinha estado lá sempre, só à espera que eu me acolhesse nos Seus braços para me limpar as lágrimas.
O dia seguinte foi de pura alegria infantil.