sábado, agosto 22, 2015

Considerações duma alma siderada.

As relações abertas deixam passar muita corrente de ar e um gajo acaba constipado.
E as cabeças abertas? As cabeças abertas são do pior, é sangue por todo o lado e massa encefálica à vista.
Por favor, senhores, fechem as cabeças e as relações!

terça-feira, julho 28, 2015

Às vezes tenho pensamentos estranhos. Olho para os velhos e vejo que lhes sobra pele por todos os lados, enrugam-se e encolhem. Pergunto-me se vamos mirrando dentro da pele que antes envolvia um corpo inteiro; talvez o processo de envelhecer seja esse, mirrar. Se não morrêssemos antes, acabaríamos por desaparecer por dentro; de nós sobraria apenas pele, e os vindouros poderiam usá-la para fazer tapetes. Se tivéssemos pêlo e o pêlo resistisse ao nada.
(Juro que bebi apenas água.)

quarta-feira, julho 22, 2015

Até logo, pai.

No dia 17, após uns dias de internamento hospitalar no que suponho tenha sido intenso sofrimento, o meu pai faleceu.
Tinha 83 anos e viveu uma vida muito complicada: a morte da mãe no dia do seu nascimento marcava o início. Sofreu abandono familiar por parte do pai (nunca a coisa foi colocada nesses termos, eu é que o entendo assim) e uma infância carregada de responsabilidades de adulto. Uma infância sem mimo e sem riso. Passou fome. Trabalhou para além do que seria razoável pedir-se a uma criança. Naquela altura era normal e não creio que "pedir" seja o verbo adequado. Como adulto, não foi o pai que eu idealizava. Atrever-me-ia a dizer que não foi o pai de que eu precisava. Mas foi o melhor pai que soube e pôde, estou em crer. Agora partiu, para viver a sua verdadeira vida, do lado do tempo em que o tempo não conta.
No dia em que faleceu, estive tranquila. Aquele pareceu-me o desfecho sereno e desejável de uma vida carregada de sofrimento, e particularmente quando nos seus últimos anos estava acamado. Agora não sei como estou.

quinta-feira, junho 11, 2015

Tenho uma bicicleta guardada na garagem. É verde, linda, simpática e disponível. Já eu... Macacos me mordam se não pego nela, não lhe limpo o pó e não vou passear. E é amanhã. E entretanto, pelo sim pelo não, vou manter-me afastada do jardim zoológico.
Ontem alguém me disse que era feliz. Pedi-lhe um autógrafo.

quarta-feira, junho 03, 2015

Gosto dos livros antigos, de mergulhar neles o meu distinto nariz, de aspirar aquele cheiro das páginas envelhecidas. Cheiro de memórias e de momentos distantes, nem sempre meus, os momentos ou as memórias. Os livros antigos contam histórias paralelas às dos textos. Os livros antigos cheiram a outono. E gosto.

terça-feira, junho 02, 2015

Não tenho escrito. Nem aqui, nem em papel, nem em pergaminho, nem em qualquer outro suporte. Não tenho lido. Não tenho orado. Não tenho. Vem um dia em que me sinto pouco viva, em que sinto a falta de coisas bonitas, a falta que me faz a poesia. Não falo de poesia em verso, falo dos dias que são poemas. É preciso procurar para encontrar. É preciso querer para ter. Estarei de volta?
Olá vida!