sexta-feira, dezembro 07, 2012

Por muitas e (a)variadas circunstâncias, desta vez externas, a minha cabeça tem andado conturbada e o meu coração triste. Hoje, pela primeira vez em longos dias, tive vontade de cantar (e cantei). Celebro esta pequenina alegria que volta e uma reconciliação que consegui ontem com alguém que me é especial. Acredito que uma coisa não seja alheia a outra.

terça-feira, novembro 27, 2012

Muitos dias sem escrever. Muitos dias aborrecida. Alguns dias triste. Alguns dias sem saber se eu ainda sou eu, se não me transformei num cogumelo. Esponjoso. Desconhecido.

sábado, novembro 03, 2012

Destes dias.

A apatia é uma enorme ave cinzenta que vem por bem. Pousa no meu ombro para me abrigar, como uma sombra me abriga do calor excessivo. Como se fosse uma cortina que me impedisse de ver uma paisagem muito triste. O único problema da ave Apatia é que é enorme. Abre as asas para me proteger e tira-me a luz e a respiração.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Ressalva

As histórias que às vezes conto de que como a pobreza e a tristeza dos outros me comove, e do que faço por eles, não as conto para me vangloriar da minha generosidade e bom coração. Acho que sim, sou generosa e tenho um bom íntimo (porquê não me reconhecer algumas qualidades?), mas o que eu faço é apenas o que o instinto me dita naqueles momentos. Não faço nada de extraordinário, apenas reajo a coisas que me perturbam. Reajo como posso. Se partilho estas histórias é apenas porque elas mexem comigo. Agora o que verdadeiramente me anima, por exemplo em relação àquela velhinha lá em Lisboa, de que falei num dos posts anteriores, é saber que se geram ondas de boa vontade, que há muita gente que se compadece e que gosta de partilhar o que tem. Todos juntos poderíamos mudar o mundo!

terça-feira, outubro 30, 2012

Parfois

Às vezes vem uma onda de sensibilidade que me afoga. Não é tristeza, mas traz tristeza. Olhar para este mundo e querer que ele fosse tão melhor. Olhar para mim e querer-me melhor.
E também ter a noção de que me exponho ao perigo ( a perigos) simplesmente por agir sob impulso e querer mudar o mundo. Tenho 46 anos e ainda sonho mudar o mundo.
E depois uma sensação de quase loucura, de não pertencer aqui, de que me depositaram num planeta estranho.
Doloroso.

domingo, outubro 28, 2012

Mas ainda há esperança

Ela parecia um cão vadio em versão humana. Velhinha. Pequenina. Com uns chinelos horrorosos e os pés gelados (toda ela gelada), os pés calejados como nunca vi. Estava em frente à estação do Oriente (Lisboa), virada para o lado do Centro Comercial Vasco da Gama. Tinha um qualquer problema de dicção. Pedia um moeda. Olhos infinitamente tristes. "Venha comigo tomar o pequeno almoço ao café"- disse-lhe eu. "Fica mais reconfortada e escusa de estar aqui ao frio." E ela veio, pequenina, quase debaixo do meu braço. As meninas do café ofereceram-lhe uma fatia de bolo, e acabámos por lhe embrulhar o queque que eu lhe tinha pago para acompanhar a meia de leite quentinha. Chorava de mansinho. Enxuguei-lhe as lágrimas. Fomos ao Continente ver as promoções, comprar-lhe umas botas quentinhas, umas peúgas e um casaco impermeável. Escolhido a dedo, do mais barato, mas que a aquecesse. Ainda lhe dei um cachecol de malha que tinha na minha mala de viagem. Sabe-se lá porque é que o pus lá, porque tinha roupa mais que suficiente para me agasalhar. Na fila do supermercado, para pagar, veio uma senhora dizer que fazia questão de me dar cinco euros para ajudar na despesa. Aceitei, claro, e agradeci.

Já disse onde ela estava. Se a virem por lá, nos próximos dias, tratem-na bem, dêem-lhe qualquer coisa que não vos faça falta. Ou que faça um bocadinho. É bom partilhar as faltas. E eu já sei onde vou poupar os pouco mais de vinte euros que gastei com ela.
Porque ninguém devia chegar a velho assim. Como um cão abandonado, com o olhar dos cães abandonados. De livre vontade houve pessoas comuns que me ajudaram a ajudá-la e é isso que me dá esperança. E agora já sei porque os carros dos senhores políticos importantes têm que ter vidros fumados e andar depressa. Eles são sensíveis e não podem ver a miséria.

quinta-feira, outubro 25, 2012

:(

Hoje uma amiga encheu-me de tristeza.
Anda tomar um café, disse-lhe eu. E fomos. Que olhar tão triste, V.! E contou-me que ia provavelmente ter que declarar falência do seu negócio, que o marido, que até ganhava bem, deixara de receber. "Medo de perder o que é meu", disse-me ela. E que, no meio das contas que se avolumam, até conseguir tirar dinheiro para sustentar a família de 5 elementos ia ficando complicado. E eu fiquei a olhar para ela. Queria tanto poder ter-lhe dito: "Não te preocupes, eu ajudo-te." A verdade é que não tenho nada (ou muito pouco) para dar.
Disse-lhe apenas: "É uma fase. Vais ultrapassar isso." (E vai, porque o marido vai começar a trabalhar para outra firma, e tendo ele ordenado, as coisas melhorarão significativamente.)
Este é apenas um caso. Um dos milhares. Dói-me mais este, porque ela é minha amiga. E quando penso nas frotas de carros do governo, e do PS, e do raio que os parta, nas reformas milionárias que se acumulam com ordenados, e nas muitas outras desonestidades de que nada percebo, sei que vivo num país governado por assassinos, e não sei que ganas me dão.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Pegar num enorme e resistente saco do lixo e ir enchendo: coisas, mais coisas e mais coisas que fui acumulando e que não me servem para nada. Muita treta, muito lixo. O que significa que a minha passagem pelo mundo é bastante poluente.
 Em contrapartida, o mundo também me polui bastante. Cheguei com uma alma clarinha e pura, podia passar-se o algodão, o tal que não engana, não havia em mim ponta de maldade. Todos nascemos assim. Pois, eu estou cheia de pó, desse pó de que nenhum banho me liberta. E lá no fundo, lutando e sobrevivendo, a pureza dos primeiros dias.
 E a casa, a casa edifício, a acusar a face caótica de quem a habita. Casa queixinhas!

terça-feira, outubro 23, 2012

Sem palavras... ou com poucas.

Ando muito triste com este país. Mesmo muito triste e preocupada. A cada dia mais uma notícia angustiante.
Nunca estive tão preocupada. E zangada também.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Mateus

É o mais novo dos meus quatro sobrinhos. Faz hoje uma mão cheia de anos. Traquina, infinitamente meigo, tagarela, tímido até ao limite quando está fora do seu ambiente...
O meu puto mais pequeno, o mais pequeno dos quatro sobrinhos do meu coração.
Parabéns, garoto lindo!

O meu psiquiatra preferido


Chama-se  Francisco Allen Gomes e é a razão porque vou a Coimbra algumas vezes. Demorei anos a encontrá-lo, um psiquiatra que atinasse com a medicação que me é necessária, que não me trouxesse dopada e adormecida, que me explicasse o porquê das suas opções em relação ao meu tratamento. E acima de tudo um homem muito profissional, com quem sinto uma enorme empatia, que me faz falar quando me parece que nada tenho a dizer (o meu "espremedor de citrinos", diz um amigo meu). Que me cansa muito às vezes, que me ajuda sempre a pôr as coisas em perspectiva, e a quem sobra sempre uma palavra de carinho. E tem aquele sorriso de criança, e imensas histórias de vida que adoro ouvir-lhe.

* fonte da foto.

domingo, outubro 21, 2012

Tenho saudades do blogue


E disse-me o blogue que tinha saudades minhas.


quarta-feira, outubro 17, 2012

As coisas que as pessoas bondosas nos ensinam

Era uma senhora muito bondosa. Era proprietária de uma tabacaria, e recolhia tampinhas de garrafas de plástico para ajudar os meninos deficientes a terem cadeiras de roda. E agradecia muito quando lhe levavam as tais tampinhas. Um dia fechou (acho que declarou falência, sei lá...) a sua tabacaria. Telefonou às funcionárias na manhã do próprio dia em que a fechou. Que não fossem. E quanto aos papéis para o fundo de desemprego, que contratassem um advogado. Eu abri a boca de espanto e acho que ainda não consegui fechá-la por completo. Já passaram meses.

domingo, setembro 30, 2012

Reflexões duma mulher sem pulgas

Tenho a ideia de que mereço da vida mais do que ela me tem dado, e ao mesmo tempo muito menos. O que  me falta ainda o alcançarei, ser-me-á dado, e o que tenho sem qualquer mérito só me resta agradecê-lo e ser generosa. Reparti-lo. Obrigada, Abba. E perdoa-me por me esquecer de Ti, vezes e vezes sem conta. Tantas que me sinto indigna de voltar.

sábado, setembro 29, 2012

Remorsos

Eu tinha duas gatas, a Julie e a Nuvem.  A Julie era uma vadia que não parava em casa, e que na rua, segundo a veterinária por causa do stress das bulhas com os outros gatos vadios, apanhava constantemente fungos, cujo tratamento me ficava bem caro. Custava fechá-la em casa e deixá-la a chorar todo o dia. Decidi levá-la para o campo, para casa da minha mãe, onde ela teria toda a liberdade do mundo, muito espaço e muito verde, e onde a minha mãe a trataria.
Assim que a pus no chão a gata desapareceu. Eclipsou-se. Fiquei lá um dia e cansei-me de a chamar. Nunca mais se viu. Não tendo feito de propósito, foi como se a tivesse abandonado... Chorei dois dias seguidos, e depois decidi que já chegava de tanto choro. Ainda tenho remorsos. Ainda imagino a minha gata a passar fome por aí, sentindo-se abandonada, e ainda espero por ela. Que apareça. Lá ou cá. Que apareça. Fica em jeito de confissão de uma coisa má que eu fiz e que já não posso corrigir. Agora só tenho a Nuvem.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Espelho meu...

Mulher muito menina, às vezes eu acho que sou extraordinária. Que se eu fosse outra pessoa que não eu, e existisse à mesma uma eu que fosse esta, as duas haviam de gostar muito uma da outra...


Adoro falar para ninguém perceber! :)

sexta-feira, setembro 21, 2012

Cuidar de nós

Atravesso um período de falta de motivação, e inércia, e a coisa tem que mudar. Por todos os motivos, e principalmente porque tal estado me é desconfortável. Muito.
As férias, tendo tido coisas muito boas, foram cansativas. Porque, com os meus quase cinquenta anos, preciso de algum sossego, e ter andado de um lado para o outro, mais o calor excessivo do Alentejo, me entorpeceu. Ah, pudesse o Alentejo ter só a temperatura amena dos fins de tarde... ou tivesse eu paciência para dormir sestas estando de férias...
Para que conste, participei na minha primeira manifestação: "Que se lixe a Troika. Queremos as nossas vidas!" 15 de Setembro. E congratulei-me com a mole de gente pacífica que apenas queria dizer que não quer que nos destruam. E, não fora eu ter um trabalho de horários irregulares e estranhos (os horários dos centros comerciais), participaria doravante em tudo o que desse continuidade a esta luta. Por mim, pelas crianças de futuro confiscado, pelos muitos de nós, portugueses, que vivem abaixo dos limites da miséria, pelos muitos que têm fome, e filhos, e nada para lhes dar. Eu digo e repito que nada percebo de política. Apenas tenho a certeza de que é uma possível uma distribuição mais equitativa dos sacrifícios, e que é necessário olharmos para além dos nossos umbigos e levantarmos a voz por quem já não tem voz.

quarta-feira, setembro 12, 2012

De férias, longe da maresia, mas bem perto de muito mimo. Alentejo. Amigos, família, calor excessivo, livros, fins de tarde magníficos, conversas e bebés. E belas noites de sono. Férias, pronto.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Dezoito anos sem ti. E a certeza de que nunca te esqueceremos. Talvez nem depois da nossa morte.

domingo, agosto 19, 2012

O escaranovo

O escaravelho nasceu, olhou-se no espelho dos olhos da sua mãe e perguntou:
- Quem sou eu, mamã?
- Quem és, na tua essência, descobrirás mais tarde. Por agora basta-te saber que és um escaravelho.
O escaravelho, que sabia por instinto as palavras todas e o seu significado, achou aquilo muito injusto. Acabara de nascer e já se chamava velho? Escara velho?
- Não, mãe, desculpa lá, eu vou ser um escaranovo. Aliás, só o corpo escarenvelhece. No fundo de mim vou ser sempre um escaranovo.

- Ok, fica combinado. Assim respondeu a mãe que, cheia de dores do pós-parto, se achava  com pouca paciência para filosofias baratas. Baratas não, escaravelhas.

terça-feira, agosto 14, 2012

Perplexidades

Sempre fiquei confusa quando as pessoas simplesmente desaparecem da minha vida, dum momento para o outro, sem que eu me lembre de lhes ter feito mal algum, e sem explicação alguma. Alguma razão terão... Mas não me parece que seja a forma mais correcta de proceder.

quinta-feira, julho 26, 2012

Crescer

Nos últimos meses mudei tanto, mas tanto! Tanto como não mudei em anos. E foram mudanças muito positivas. Cresci muito, estou mais descontraída e mais feliz. Mais em paz comigo própria. Outros disseram de mim coisas maravilhosas, e repetiram, e eram muitos a dizer, a minha auto-estima cresceu imenso. E o medo abrandou. Sou bem mais feliz. Sei que as coisas nunca são para sempre e haverá ainda períodos negros para passar, mas por agora é aproveitar, fregueses, que a cigana está louca!

sexta-feira, julho 20, 2012

Que bom!

Hoje foi um dia tão tranquilo que dou por mim e já é meia noite, já tenho que me deitar, sob pena de amanhã no trabalho andar intratável. Dormi uma sesta, fui tranquilamente fazer compras e ao fim da tarde estendi-me na praia a receber na pele beijinhos de sol e a encher os ouvidos de mar. Com tão pouco sou tão feliz! E acho que a infelicidade é precisamente obrigarem-me a afastar-me das coisas pequenas e simples como beijinhos de sol. Quem me obriga? A vida, claro. Ou talvez o contrário dela, que não é necessariamente a morte.

quarta-feira, julho 18, 2012

Oração

A minha oração:
- Deus, manda uns soporíferos na água da chuva. Põe-nos todos a dormir por sete dias e reconstrói o mundo. Isto está a precisar de reparação total.
Acorda-nos só quando tudo estiver limpinho e fresco, e, como dizia a outra, suspende a democracia por algum tempo. Isto é: esquece lá essa coisa do livre arbítrio até achares que o merecemos.
Obrigada. 
Assina a tua filha que gostava de saber amar-Te mais.

sábado, julho 14, 2012

À espera de Godot.

À espera de quem não vem, de quem nem sequer prometeu vir, mas também não disse que não vinha. Penso que um dia deixarei de ser assim, que vou crescendo todos os dias, e as minhas lágrimas apagam-se numa espécie de paz.

Resultados do concurso

Há dois prémios: para as duas únicas participantes. Porque gostei dos textos, e pelo interesse manifestado. Aguardem contacto, Marria e Margarida.

quarta-feira, junho 20, 2012

Quem quer continuar?


Era uma chave verde. Abria jardins inesperados, mas só nas mãos do senhor Afonso.
O senhor Afonso trazia sempre a chave consigo. De repente, no meio da confusão das ruas, ou quando precisava de sossego para pensar, o senhor Afonso sacava da chave e desaparecia.
Lá na empresa onde trabalhava diziam que ele era  um tipo muito estranho.
- Onde está o Afonso?
- Não faço ideia. Ainda agora estava aqui a falar comigo...
Poucos minutos depois, o tempo talvez de ir à casa de banho ou chegar à janela a ver se havia nuvens no céu, o senhor Afonso reaparecia.
- Onde estiveste?
- Ah, fui só ali dormir uma sesta na risca amarela do arco-íris.
Estas respostas não ajudavam nada.
Mas havia um menino de coração perfumado de violetas em flor que às vezes o senhor Afonso levava consigo. Passava pela casa onde o garoto vivia com a avó...


Isto é um jogo. Proponho que continuem esta história nos vossos blogues, ou onde entenderem, e deixem aqui nos comentários um link para eu ir ler. A história que mais me agradar (sim, sou eu o democrático júri) receberá um prémio. Uma surpresa. Quem se habilita?




ADENDA: O "concurso" termina no dia 4 de JULHO de 2012.
Porque é que não me apetece fazer coisa nenhuma de útil? Só ficar sossegadinha sossegadinha, à espera que o tempo passe, que é coisa que eu sei que ele fará?
Se eu fosse um gato enrolava-me sobre mim mesma para que o mundo me parecesse mais longe, e a cabeça  a descansar sobre a barriga para melhor proteger os meus son(h)os.
Eu queria ser um gato.

domingo, junho 17, 2012

Não tenho tido nenhuma vontade de escrever. Por muitas razões mas sobretudo porque a minha vida tem andado um emaranhado de emoções, novas e velhas, muito boas e muito más. Acho que acalmámos, eu e as emoções.

sábado, maio 12, 2012

Para as mães da minha vida.

Mãe é amor feito colo e carinho.
Mãe é por vezes uma lágrima
e muitas vezes um enorme sorriso.

Mãe - tu és a minha âncora
e as velas que me fazem navegar.
Tu és a raiz que me prende
e o vento que me impele para a luz.

quinta-feira, maio 03, 2012

Agora mesmo.

Fui ali comprar pão. E um menino pequenino, daqueles meio trôpegos que se vê que ainda mal aprenderam a caminhar, encostou-se às minhas pernas. Era suave como uma nuvem de algodão e leve como uma pétala de flor que Deus em pessoa me tivesse oferecido. Foi um instante. Mas afagou qualquer coisa muito ferida dentro do meu coração.

domingo, abril 22, 2012

A reler apontamentos antigos

Estou a aprender coisas que já sabia, mas cujo conhecimento às vezes não altera grande coisa. Desta vez, saber está a funcionar: nomeadamente que a desilusão é uma porta aberta para um lugar mais feliz, e que há sempre mais portas e mais lugares. E que nunca vou deixar de confiar, porque confiar é a minha essência. E quem mais perde é sempre quem ama menos.

terça-feira, abril 03, 2012

Para ti

Hoje lembrei-me muito de ti. Desde aquela fotografia na escola primária, com uma folha de desenhos à frente, um grande sorriso e o casaco de malha feito pela mãe.
E ainda aquelas fotos  mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa  a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!

terça-feira, março 20, 2012

"Se ao que busco saber nenhum de vós responde..." *

Sou mais feliz na ignorância. Cada pequena notícia deste pequeno país deste minúsculo mundo, cada douta opinião de quem sabe tudo sobre as causas dos nossos males e diz que "eu bem vos disse", mas não apresenta solução nenhuma, apenas aponta um caminho negro cheio de cadáveres e diz "é por aqui"... cada gota deste mar de informação me baralha e me angustia por uma semana. Eu ainda quero ser feliz, porra! Digam-me assim "faz isto que isto ajuda!" Se eu não posso ajudar, deixem-me em paz. Olhos atentos para os que se cruzam comigo, coração e ajuda (toda a que eu possa) disponível para eles. Para o resto: areia, cabeça, avestruz. E já me disseram que afinal as avestruzes não enterram a cabeça na areia. Desiludi-me com elas, a sério!


* José Régio

sexta-feira, março 16, 2012

Sou uma mentirosa

Aqui estou eu.

Sejam-me sinceros: interessam-vos alguma coisa as reflexões que para aqui debito?
Para mim, interessam, claro. Mas pergunto-me se não interessarão apenas a mim. O que não invalidaria que as escrevesse, escrevo o que quero, onde quero, e o que não falta são senhores e senhoras, que se julgam doutos, a dizerem e a escreverem coisas sem nenhum interesse. Mas é só para saber.

segunda-feira, março 12, 2012

Precisada de mim.

Não sei por quanto tempo, não escreverei nada aqui. Ando a precisar de escrever sem filtros coisas que se agitam no meu coração e só eu posso ouvir. Comprei um diário.

See you later, aligator!

quarta-feira, março 07, 2012

Daqui a umas horas terão passado quarenta e seis anos sobre o dia em que nasci.


E nem sei o que diga sobre isso, tanto tempo que quarenta e seis anos me parece, e tão pouco sabedora da vida que me encontro.

segunda-feira, março 05, 2012

Macacos no sótão

Passei uns dias muito felizes em Lisboa, dias cheios de amigos, fotos, rio, crianças e boa comidinha...
Pelo meio tive a infeliz ideia de ir ao Jardim Zoológico, onde tinha ido apenas quando era uma criança de seis anos... Não vou falar sequer do exorbitante preço do bilhete, que foi o preço que paguei por uma profunda perturbação e tristeza. Primeiro foram os bisontes, pacaças e o diabo a sete, em quintalitos apertados, rodeados dos próprios excrementos. Excrementos originais, alguns deles, os dos bisontes eram particularmente desenhados - o bisonte não tem uma tripa qualquer, tem tripas que moldam a m... como se plasticina fosse. Sim, ando particularmente atenta a excrementos, desde que li com os meus sobrinhos pequenos a história d' A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça. Querida toupeira, se tivesse sido um bisonte terias um chapéuzinho mais artístico....

O pior veio depois. O pior foram os macacos. Macacos aranhas, dizia a tabuleta. Um deus cruel pôs-me diante dos olhos um espelho convexo, e disse: Olha bem. Estes são vocês, os humanos. São brinquedos meus com que me divirto por toda a eternidade, nesta espécie de pista vos movimento como quero, e julgam vocês que são autónomos... Repara, porque é de ti que se trata. Sem alma, sem pudor, sem horas nem dias nem objectivos... Carregando os filhos às costas, defendendo cada um o seu pedaço de laranja, levando a comida à boca com essa mãozinhas peludas.... Grotescas imagens as vossas. Divertidas. Apenas bichos sem pudor nem espiritualidade alguma.
Assim gritou para dentro do meu cérebro aquele deus estúpido. Impossível ignorá-lo. "Sem pudor", repetia o eco dentro da minha cabeça. Não soube precisar quais seriam os machos e quais as fêmeas, vi umas pendurezas muito penduradas que não pareciam isso. Hoje o pai Google explicou-me que não é fácil à primeira distingui-los, porque as fêmeas têm clitóris assim exibicionistas. Terão elas o tal complexo de castração de que falava Freud?
Quis sair do zoo o quanto antes, mas aquilo era labiríntico. Ignorei vales de tigres e não sei que mais, e quando finalmente consegui sair, eu era uma menina desorientada e triste. Perdida, literalmente perdida, porque nem sequer sabia o caminho para a estação de comboios que havia de levar-me à pensão e a um banho de água quente. Mas nem o banho me aqueceu a alma. Eu supostamente não teria alma, mas ela chorava dentro de mim, desalentada.
Horas mais tarde, de regresso de um jantar em casa de amigos, sentindo-me quase louca, desabafei com a Sara, que veio trazer-me a casa. E ela ajudou-me muito, porque me ajudou a pôr em palavras isto que agora consigo escrever. Antes era apenas um emaranhado de soluços, inaudíveis do lado de fora do meu coração.
Quando me deitei, minutos depois de me despedir da minha amiga, eu disse ao deusito ranhoso: Não quero mais conversas contigo.
Chamei o meu Deus para junto de mim, e Ele disse que tinha estado lá sempre, só à espera que eu me acolhesse nos Seus braços para me limpar as lágrimas.
O dia seguinte foi de pura alegria infantil.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O meu mais profundo pensamento de hoje.

Tenho comichão no couro cabeludo. Como não tenho piolhos, devo estar a tornar-me alérgica às ideias...

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Olhar impaciente, sem brilho nem curiosidade. A boca um risco horizontal, indiferente, nem triste nem alegre. A pele pálida, quase transparente, como se, num passe de mágica, a qualquer instante, pudesse dissolver-se na paisagem, ser talvez parte do tronco de uma árvore, ou um bocadinho de liberdade inesperada nas asas de uma andorinha.
Sorri à aproximação de alguém dos seus antigos afectos, daqueles que, por terem sido fundos, não esquece. Mas até deles se desinteressa, minutos depois.
Dir-se-ia rodeado de um invisível círculo, que o protege mas aprisiona.
E depois, de velho passa a criança, desinteressado ainda, mas criança, e sob orientação da animadora social, cola grãos e pedacinhos de papel colorido sobre um pedaço de cartolina branca. É de novo um menino na escola, rodeados de outros meninos com dificuldades de locomoção. Imagino que tenha vontade de qualquer coisa de diferente, mas acreditamos que os exercícios simples lhe estimulem o cérebro meio adormecido e o impeçam de deslizar mais e mais para o seu bocadinho de escuridão.

Eu tenho uma teoria

Diz-se que existem sete mulheres e meia por cada homem. Eu acho que o meu homem anda por aí muito ocupado a enviuvar, a divorciar-se, a separar-se. Tem que demorar, pois tem... Só não me parece bom augúrio aquela meia mulher... Será que acabo decepada, num qualquer crime passional? Ai a minha vida!

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Publiquei isto no facebook, mas parece-me que merece blogue.

Praia de Mira. Uma multidão de gaivotas na praia. Organizadas e quietas, a maior parte delas. Fiquei a pensar o que seria aquilo. Se um congresso, se um concerto (visto que algumas cantavam...). Mas não ouvi nenhumas aplaudir. Se no meu curso de Línguas e Literaturas Modernas eu tivesse aprendido Gaivotês, teria perguntado a uma delas...
Bem, pareceu-me que aquilo seria um casamento, porque estavam quase todas em profunda reverência. Também podia ser um funeral, é certo, mas não vi o morto.

Sempre pensei que se eu algum dia casasse, gostava que fosse na praia.
 Depois, muito mais tarde, descobri que há uma terrinha que se chama Miramar, em que há uma capela mesmo na praia. Bom, só falta o noivo... :) Penso que o encontrarei lá para os 90 anos quando ambos estivermos no lar da terceira idade. Nessa altura deixo crescer o meu cabelo branco, qual Rapunzel, e o cabelo será o meu véu branquinho, enfeitado de algas e conchas. Meninos das alianças, talvez umas estrelas do mar e uns polvos que, por terem muitos braços, dão jeito para segurar o véu.
A minha bengala e a do noivo hão-de ser pintadas de branco e ornadas de nenúfares bebés. Só não posso esquecer-me de convidar o inem, por causa dos eventuais ataques cardíacos, meus ou do meu amor.

Sometimes...

Às vezes sobrevem-me uma falta de paz que não sei que vem cá fazer ou quem a chamou. Fecho os olhos ou abro-os bem para ver as coisas pequeninas imensas à minha volta, e esforço-me por não alimentar a perturbação. Mas não sei, acho que às vezes a alimento. Ou então é ela que vai ao frigorífico e se alimenta sozinha.
(A ver se compro cervejas para pôr no frigorífico, a ver se a tal da Perturbação se embebeda e entra em coma alcoólico.)

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Eu sei

Eu sei que cada um escreve o que quer e que quem não gosta põe na borda do prato. Mas há por aí certos blogues, até bastante frequentados, em que acho que se enfatuam coisas corriqueiras de forma a que pareçam extraordinárias. E eu não entendo isso. Nem entendo que, a avaliar pelos comentários, eu seja a única a pensar assim. Gosto quando as pessoas escrevem sobre coisas simples mas sabem que são simples e as apresentam como tal. Aliás, sou grande fã da simplicidade.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Tendo ou não tendo razão, às vezes passo-me dos carretos com os outros. Disse-me uma amiga: "Conta até dez. E se não chegar, conta até vinte." Ontem tive que usar a técnica para não baratinar com alguém que estava ao telefone. Resultou, mas o tempo de silêncio enquanto eu contava mentalmente, deve ter parecido  estranho. Se alguma vez me perguntarem o porquê do silêncio, que devo dizer? "Estou a contar até vinte para não o (a) mandar à merda"?

Não, pois não?

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Auto-telegrama

Quando tudo parecer mau não é assim tanto Stop Autenticidade e simplicidade são inquestionáveis qualidades Stop Ama-te, o leite Matinal não pode andar sempre a lembrar-to Stop Sorri, é uma curva ascendente que se faz com os lábios Stop É preciso ensinar-te sempre tudo Stop Este telegrama já está a sair-me muito caro Stop

terça-feira, janeiro 24, 2012

Para memória futura, minha e caseirinha.

Hoje fiz um arroz maluco, inspirado no deixa-lá-ver-o-que-há-por-aqui, e ficou delicioso. Ingredientes: arroz, manteiga, ervilhas, caril, açafrão, orégãos, essência de baunilha, vinagre, limão, sal... e água, claro. huum!!

domingo, janeiro 22, 2012

...

Desde que me conheço adulta vivi sozinha. Tive e tenho muitos e bons amigos, mas nunca encontrei um companheiro com quem pudesse partilhar os dias e as horas, que envelhecesse comigo, que visse o meu corpo criar rugas e flacidez e fosse capaz de me achar bela ainda assim. E reciprocamente. Nunca isto me incomodou e soube sempre que esta era a forma de vida que mais convinha ao meu feitio difícil, às minhas inesperadas neuras, à minha originalidade e independência. E porque quero que as minhas asas não se deixem limitar por externas condições que não sejam as absolutamente necessárias. Mas agora que começo a envelhecer - diz-se que os quarenta anos são a velhice da juventude - confesso que me sinto muitas vezes muito só, que muitas vezes me apetecia um abraço que fosse inteiramente meu...
E lembro-me de uma coisa que uma vez um amigo da escola me escreveu, naqueles livrinhos de autógrafos que usávamos - quando ainda sabíamos que éramos todos suficentemente importantes para querermos autógrafos uns dos outros, e isso faz de facto muito mais sentido que ter autógrafos de gente absolutamente desconhecida apenas porque, por mérito nenhum, apareceram na televisão. Escrevia esse amigo, com quem tenho o imenso prazer de conviver ainda: "Podes ser livre e podes ser amado, mas nunca penses ter as duas coisas ao mesmo tempo". Pois eu, garganeira me confesso, queria as duas.
Acho verdadeiramente que nestas coisas não fazemos escolhas, a vida fá-las por nós. Em parte, pelo menos.

Hoje estou em casa.

Estupidamente acordei já eram quase duas da tarde. Mais estupidamente ainda, sonhei com a loja. Só chatices, só gente que me atazanava o juízo, e depois eu que não conseguia fazer um simples telefonema: ou porque não sabia da agenda, ou porque me enganava nos números, ou porque digitava o número de telefone no teclado do computador em vez de o digitar no telefone - não é nada que nunca me tenha acontecido estando acordada.
Acordei  e liguei para casa dos meus pais para felicitar o meu pai pelos seus 80 anos, mas ninguém me atendeu. Fui à rua respirar o pão e comprar o sol (enganei-me nesta frase, mas afinal - concluo - é muito mais bonita assim.) E agora estou de novo em casa a deliciar-me com a música de Mafalda Veiga. Gosto tanto! E entretanto penso que tenho que passar a ferro, varrer o chão, levar para o ecoponto as coisas que andam por aqui espalhadas em sacos... E doi-me um pouco a cabeça. Daqui a pouco é noite e não aproveitei nada da minha folga.
Pronto, é isto.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Obrigada por não cederes sempre à minha vontade.

Porque às vezes - muitas vezes - as coisas que desejo muito só me fariam mal, a médio ou longo prazo. A mim e / ou a outros.
Deus meu, ajuda-me a compreender que o Teu amor por mim é infinitamente maior que o meu amor por quem quer que seja, incluindo, claro, eu própria.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

"Escreve um poema" - disse ela.

- Assim de repente? Vamos a ver se consigo...

Em dois ou três minutos escrevi. E gostei do resultado final.


O amor chegou de mansinho
tocou-lhe no ombro
e sorriu.

Ela franziu o sobrolho.
Era o amor,
mas não deixava de ser um desconhecido.

- Não se atreva a tocar-me,
disse ela.

E o amor afastou-se.
Triste.

(Seria muito estranho dizer que esta é mais ou menos a história da minha vida? Eu digo coisas muito estranhas.)

sexta-feira, janeiro 06, 2012

A noite passada sonhei com uma amiga que já não vejo há uns vinte anos, ou quase. E foi tão bom reencontrar-te, minha João. Que mania que tu tens de não ter facebook, nem nada disso. Já te disse que quem não tem facebook não existe? :p Sempre gostei muito de ti, sabes disso... Desde que tínhamos aí uns 12 anos, que foi quando nos conhecemos. É pá, deu-me uma saudade!

O que a vida nos (des)ensina.

Lembro de ter vinte e tal anos e dizer que não conseguia deixar de falar com ninguém, deixar mesmo de cumprimentar. Aos quarenta e cinco - lamento dizê-lo - já há pessoas que preferia não conhecer, e que passo bem sem cumprimentar.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Parvoíces dos meus dias.

Neste Natal o Centro Comercial onde trabalho promoveu uma série de eventos destinados a crianças. O pai natal sentado no cadeirão, e o Panda do Kung Fu. Esse desgraçado desse Panda andava sempre a atravessar-se no meu caminho, com passos patarocos pequeninos a atravancar-me as horas livres. Baptizei-o à minha maneira: O Panda do Fungo no Ku.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Da aprendizagem do medo.

Quando era menina não tinha medo. Quando era adolescente, não tinha medo. Nem do escuro, nem de sair de casa, nem de desconhecidos... Demorei muito tempo a aprender o medo. Já adulta, convidei um toxicodependente para jantar em minha casa, levei no meu carro um bêbedo que me pediu que o levasse a casa, abri a porta a um estrangeiro que me pediu café (coffee) à meia noite... Não sei bem porquê nunca ninguém me fez mal, nesses momentos de perfeita inconsciência... O meu anjo da guarda tem umas grandes asas e gosta muito de mim, é o que posso concluir. Sempre tive uma quase ilimitada confiança na bondade dos outros, ainda que não os conhecesse. A verdade é que sempre recebi feed-back positivo  dessa confiança, repito, nunca desconhecido algum me fez mal. Pelo contrário, muitas pessoas se cruzaram no meu caminho e me ajudaram quando eu precisava de ajuda, e não perguntaram quem eu era nem desconfiaram de mim. Lembro-me de um abraço inesquecível que um bombeiro me deu, depois de um acidente, quando eu apenas precisava de um abraço. Recordo pessoas que me devolveram o ânimo só porque me sorriram, ou passaram um braço sobre os meus ombros... não me conheciam.
Mas este mundo está perigoso. Ou sou eu que vejo mais televisão, ou ouço, mesmo sem querer ouvir, histórias menos felizes que as minhas.
Fiquei triste quando hoje descobri em mim medo do escuro, medo de pessoas que passam na noite em ruas por onde também tenho que passar.