quarta-feira, março 19, 2014

Infância

Quando eu era pequenina comia-se chocolate uma vez por ano. Era normalmente em Agosto, no tempo em que os vizinhos emigrantes vinham passar as férias e o traziam. Chocolates e caramelos de nata, que se colavam aos dentes e eram tão bons! Às vezes traziam roupa e alguma ia ter lá a casa. Diz que eram "as patroas" que a davam. Roupa colorida e perfumada. Há dias um perfume qualquer evocou-me esses dias e eu pensei "cheira a França". Eu tinha três irmãos. Não conhecíamos o "é meu". Era sempre tudo nosso, tudo a dividir por quatro. Era bonito isso, eu acho. Uma vez a minha mãe mandou-me dar um recado a uma vizinha emigrante, e a vizinha deu-me uma tablete de chocolate inteirinha, grande! Grande eram 100 gramas. Eu estava sozinha, ninguém sabia, podia tê-la guardado toda para mim. Mas havia aquele "a dividir por quatro" na minha cabeça. Hoje comi sozinha um Crunch e lembrei-me desse tempo. E do cheiro das bonecas (tive duas) que eu sei exactamente qual é, um cheiro doce e novo e limpo, um cheiro tão reconfortante... nunca conseguimos explicar os nossos "cheiros", e é por isso, por serem tão nossos, que nos fazem felizes.
Um dia, já eu andava na escola na vila, naquilo a que então se chamava o "ciclo preparatório" teria uns 10 ou 11 anos, um amigo dos meus pais levou-me a um café e comprou-me um chocolate. Um "Coma com Pão". Comi-o sem pão. Sozinha, porque aí já as coisas tinham mudado um pouco, já havia coisas minhas. Lembro-me ainda da surpresa imensa e da gratidão. O valor que eu dava a estas coisas. E hoje, em meia hora, enquanto vagueava no facebook, comi 100 gramas de chocolate. Se eu fosse ainda menina, saberia agradecê-lo. A mim própria talvez, à vida, ao meu trabalho.