quarta-feira, abril 10, 2013
# 11 Historietas e tretas
- Ai, Pinóquio, tantos desgostos me dás! És lindo e cada dia mais alegre e cheio de vida, naquele dia em que te moldei fi-lo com um alegria e um amor sem par, nem tu calculas! Entretanto de cada vez que mentes, de cada vez que vejo crescer o teu nariz, é uma espada que me atravessa o coração. Porque hás-de ser assim, Pinóquio?
Assim falava Gepeto, o carpinteiro de Tóquio de cujas mãos saíra esse mítico menino. (Não, não quero chamar-lhe personagem, quero chamar-lhe menino. A gente afeiçoa-se aos bonecos com aventuras estrambólicas como só um menino de verdade podia ter.)
- Ó pá, ó pá!! - explodiu o Pinóquio que nesse dia estava muito mal disposto - que me moldaste com amor... foi foi! Que raio de amor é esse, que me fizeste do nariz um detector de mentiras? Já ouviste falar de humilhação? É o que eu sinto quando o nariz me cresce. Imagina: eu a falar com uma menina de que gosto, mas gosto assim-assim, e digo que gosto muito muito, até à lua e mais além, para lhe roubar um beijo, e o nariz me começa a crescer! Tu achas isso bem? Achas que fizeste alguma coisa de jeito? E depois, além de humilhado, fico feio com o nariz assim, eu que até sou um puto bem giro, não é para me gabar. Isso tenho que reconhecer, fizeste-me jeitoso! Mas sabes que com o nariz comprido não consigo dar beijos às meninas?
E de repente soltam-se-lhe dos olhos grossas lágrimas. - Sabias, Gepeto? Com o nariz comprido não consigo dar beijos às meninas!!
- Vá lá, acalma-te! Olha a poça de lágrimas que me estás a pôr no soalho, um soalho tão caro, que é não sei quê flutuante e me custou uma pipa de massa. Estraga-se com a água, ouviste? Com o cloreto de sódio então, nem quero pensar! Proíbo-te de chorares aqui, ouviste? Vai chorar para a varanda! Aliás este ano o governo lançou aquela lei que é proibido chorar em recintos fechados, mas como andas sempre nas nuvens, não deves saber ainda. E o teu problema resolve-se já!
Não esteve com meias medidas, puxou do nariz ao pobre Pinóquio e arrancou-lho. Pela raíz.
- Pronto, agora já podes beijar à vontade.
- Mas agora estou feio! Olha, eu estou a avisar-te, nunca mais na tua vida me pões a vista em cima.
E desarvorou porta fora, a chorar e a praguejar.
Agora anda por aí, diz que tem fome e que precisa de dinheiro para uma operação estética ao nariz. Ontem encontrei-o à porta do centro comercial, metia dó, coitadinho! Dei-lhe um chocolate e um abraço, ficou um bocadinho mais reconfortado. Alguém por aí conhece um cirurgião estético? Ou, sei lá, diz que há uns programas na televisão onde vão pessoas com dentes tortos ou muitas gordas, e que tratam delas... sei lá! Vejam se conseguem ajudar o meu amigo. Pois é, é meu amigo, a gente afeiçoa-se...
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3 comentários:
Lindo! Dá para pensar!Bjs Obrigada.
Às vezes é preciso perdermos o nariz para darmos valor ao nariz :) Deve haver um ditado budista sobre isto, de certeza.
lol, Ana.
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