domingo, abril 22, 2012
A reler apontamentos antigos
Estou a aprender coisas que já sabia, mas cujo conhecimento às vezes não altera grande coisa. Desta vez, saber está a funcionar: nomeadamente que a desilusão é uma porta aberta para um lugar mais feliz, e que há sempre mais portas e mais lugares. E que nunca vou deixar de confiar, porque confiar é a minha essência. E quem mais perde é sempre quem ama menos.
terça-feira, abril 03, 2012
Para ti
Hoje lembrei-me muito de ti. Desde aquela fotografia na escola primária, com uma folha de desenhos à frente, um grande sorriso e o casaco de malha feito pela mãe.
E ainda aquelas fotos mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!
E ainda aquelas fotos mais antigas: um menino com uma espécie de bibe acinzentado (as roupas que a mãe inventava para aproveitar todos os tecidos que lhe iam parar às mãos!), cabelos encaracolados, sentado ao lado do Juca, o cão mais antigo de que me lembro lá por casa. Essa fotografia estava tão gira! No quintal da avó, em plena primavera, a avaliar pelas muitas flores campestres que se viam à tua volta. E lembras-te daquela tirada pelo meu padrinho Amílcar, ao colo do pai, com uma outra camisola de malha made by mummy, mas essa gira, em tons de verde. Tu de dedinho apontado sabe-se lá para onde.
Depois, já um rapazinho maior, tímido, mas que se libertava em casa, muito ao contrário de mim que sempre me senti melhor fora de portas.
Às vezes, quando me via aborrecida, a mãe dizia "vai lá dar um giro!", e eu voltava sempre mais contente.
Enquanto rapazinho, suponho que a tua vida tenha sido feliz apenas por aquela capacidade que na infância temos de imaginar, criar, crivar as coisas, reter apenas as boas.
Trabalhava-se lá em casa, quando se vinha da escola íamos para o campo, ajudar no que houvesse para fazer. Nem tanto eu, que por ser menina estava destinada às tarefas caseiras - pobres tarefas caseiras! - Era uma família tradicional, a nossa, de há muitas tradições atrás do tempo real que vivíamos, e por isso é que a minha educação ficava a cargo da mãe, e a vossa a cargo do pai. Sei muito bem que ganhei com isso. O pai tinha pouco ou nada de suavidade e compreensão no que aos filhos dizia respeito. Também eu me sentia profundamente oprimida por isso, mas foi diferente.
Sempre senti, contudo, que havia uma contrapartida: nascera menina, e as mulheres valiam menos. Como eu uma vez disse à mãe - Qualquer coisa entre animal de estimação e homem. - Mas os animais de estimação eram muito pouco estimados.
Cresceste um rapaz tímido mas sempre inteligente, e quando desabrochaste tornaste-te qualquer coisa de deslumbrante! Os irmãos têm fases, mas a nossa relação estava na melhor de todas as fases quando te perdemos. Eras o melhor de todos nós, eu acho. E o mais feliz, também. Havia em ti uma tranquilidade tal que me sabia bem estar simplesmente sentada ao teu lado, em silêncio.
Fazias parvoíces sem fim: ias de carro de marcha atrás para lhe tirar km; fazias o pino em cima de uma almofada da sala, interrompendo o estudo, dizias tu que para o sangue afluir ao cérebro e as ideias te surgirem mais facilmente; inventavas viagens de carro, eu no lugar do passageiro, quando na realidade íamos a pé para o café - afasta-te da janela; olha o ramo!; trava, não vês a bicicleta!
Eras um espectáculo! E é assim que quero recordar-te. Foi um enorme privilégio teres estado na nossa vida, teres sido meu irmão!
terça-feira, março 20, 2012
"Se ao que busco saber nenhum de vós responde..." *
Sou mais feliz na ignorância. Cada pequena notícia deste pequeno país deste minúsculo mundo, cada douta opinião de quem sabe tudo sobre as causas dos nossos males e diz que "eu bem vos disse", mas não apresenta solução nenhuma, apenas aponta um caminho negro cheio de cadáveres e diz "é por aqui"... cada gota deste mar de informação me baralha e me angustia por uma semana. Eu ainda quero ser feliz, porra! Digam-me assim "faz isto que isto ajuda!" Se eu não posso ajudar, deixem-me em paz. Olhos atentos para os que se cruzam comigo, coração e ajuda (toda a que eu possa) disponível para eles. Para o resto: areia, cabeça, avestruz. E já me disseram que afinal as avestruzes não enterram a cabeça na areia. Desiludi-me com elas, a sério!
* José Régio
* José Régio
sexta-feira, março 16, 2012
Sou uma mentirosa
Aqui estou eu.
Sejam-me sinceros: interessam-vos alguma coisa as reflexões que para aqui debito?
Para mim, interessam, claro. Mas pergunto-me se não interessarão apenas a mim. O que não invalidaria que as escrevesse, escrevo o que quero, onde quero, e o que não falta são senhores e senhoras, que se julgam doutos, a dizerem e a escreverem coisas sem nenhum interesse. Mas é só para saber.
Sejam-me sinceros: interessam-vos alguma coisa as reflexões que para aqui debito?
Para mim, interessam, claro. Mas pergunto-me se não interessarão apenas a mim. O que não invalidaria que as escrevesse, escrevo o que quero, onde quero, e o que não falta são senhores e senhoras, que se julgam doutos, a dizerem e a escreverem coisas sem nenhum interesse. Mas é só para saber.
segunda-feira, março 12, 2012
Precisada de mim.
Não sei por quanto tempo, não escreverei nada aqui. Ando a precisar de escrever sem filtros coisas que se agitam no meu coração e só eu posso ouvir. Comprei um diário.
See you later, aligator!
See you later, aligator!
quarta-feira, março 07, 2012
segunda-feira, março 05, 2012
Macacos no sótão
Passei uns dias muito felizes em Lisboa, dias cheios de amigos, fotos, rio, crianças e boa comidinha...
Pelo meio tive a infeliz ideia de ir ao Jardim Zoológico, onde tinha ido apenas quando era uma criança de seis anos... Não vou falar sequer do exorbitante preço do bilhete, que foi o preço que paguei por uma profunda perturbação e tristeza. Primeiro foram os bisontes, pacaças e o diabo a sete, em quintalitos apertados, rodeados dos próprios excrementos. Excrementos originais, alguns deles, os dos bisontes eram particularmente desenhados - o bisonte não tem uma tripa qualquer, tem tripas que moldam a m... como se plasticina fosse. Sim, ando particularmente atenta a excrementos, desde que li com os meus sobrinhos pequenos a história d' A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça. Querida toupeira, se tivesse sido um bisonte terias um chapéuzinho mais artístico....
O pior veio depois. O pior foram os macacos. Macacos aranhas, dizia a tabuleta. Um deus cruel pôs-me diante dos olhos um espelho convexo, e disse: Olha bem. Estes são vocês, os humanos. São brinquedos meus com que me divirto por toda a eternidade, nesta espécie de pista vos movimento como quero, e julgam vocês que são autónomos... Repara, porque é de ti que se trata. Sem alma, sem pudor, sem horas nem dias nem objectivos... Carregando os filhos às costas, defendendo cada um o seu pedaço de laranja, levando a comida à boca com essa mãozinhas peludas.... Grotescas imagens as vossas. Divertidas. Apenas bichos sem pudor nem espiritualidade alguma.
Assim gritou para dentro do meu cérebro aquele deus estúpido. Impossível ignorá-lo. "Sem pudor", repetia o eco dentro da minha cabeça. Não soube precisar quais seriam os machos e quais as fêmeas, vi umas pendurezas muito penduradas que não pareciam isso. Hoje o pai Google explicou-me que não é fácil à primeira distingui-los, porque as fêmeas têm clitóris assim exibicionistas. Terão elas o tal complexo de castração de que falava Freud?
Quis sair do zoo o quanto antes, mas aquilo era labiríntico. Ignorei vales de tigres e não sei que mais, e quando finalmente consegui sair, eu era uma menina desorientada e triste. Perdida, literalmente perdida, porque nem sequer sabia o caminho para a estação de comboios que havia de levar-me à pensão e a um banho de água quente. Mas nem o banho me aqueceu a alma. Eu supostamente não teria alma, mas ela chorava dentro de mim, desalentada.
Horas mais tarde, de regresso de um jantar em casa de amigos, sentindo-me quase louca, desabafei com a Sara, que veio trazer-me a casa. E ela ajudou-me muito, porque me ajudou a pôr em palavras isto que agora consigo escrever. Antes era apenas um emaranhado de soluços, inaudíveis do lado de fora do meu coração.
Quando me deitei, minutos depois de me despedir da minha amiga, eu disse ao deusito ranhoso: Não quero mais conversas contigo.
Chamei o meu Deus para junto de mim, e Ele disse que tinha estado lá sempre, só à espera que eu me acolhesse nos Seus braços para me limpar as lágrimas.
O dia seguinte foi de pura alegria infantil.
Pelo meio tive a infeliz ideia de ir ao Jardim Zoológico, onde tinha ido apenas quando era uma criança de seis anos... Não vou falar sequer do exorbitante preço do bilhete, que foi o preço que paguei por uma profunda perturbação e tristeza. Primeiro foram os bisontes, pacaças e o diabo a sete, em quintalitos apertados, rodeados dos próprios excrementos. Excrementos originais, alguns deles, os dos bisontes eram particularmente desenhados - o bisonte não tem uma tripa qualquer, tem tripas que moldam a m... como se plasticina fosse. Sim, ando particularmente atenta a excrementos, desde que li com os meus sobrinhos pequenos a história d' A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça. Querida toupeira, se tivesse sido um bisonte terias um chapéuzinho mais artístico....
O pior veio depois. O pior foram os macacos. Macacos aranhas, dizia a tabuleta. Um deus cruel pôs-me diante dos olhos um espelho convexo, e disse: Olha bem. Estes são vocês, os humanos. São brinquedos meus com que me divirto por toda a eternidade, nesta espécie de pista vos movimento como quero, e julgam vocês que são autónomos... Repara, porque é de ti que se trata. Sem alma, sem pudor, sem horas nem dias nem objectivos... Carregando os filhos às costas, defendendo cada um o seu pedaço de laranja, levando a comida à boca com essa mãozinhas peludas.... Grotescas imagens as vossas. Divertidas. Apenas bichos sem pudor nem espiritualidade alguma.
Assim gritou para dentro do meu cérebro aquele deus estúpido. Impossível ignorá-lo. "Sem pudor", repetia o eco dentro da minha cabeça. Não soube precisar quais seriam os machos e quais as fêmeas, vi umas pendurezas muito penduradas que não pareciam isso. Hoje o pai Google explicou-me que não é fácil à primeira distingui-los, porque as fêmeas têm clitóris assim exibicionistas. Terão elas o tal complexo de castração de que falava Freud?
Quis sair do zoo o quanto antes, mas aquilo era labiríntico. Ignorei vales de tigres e não sei que mais, e quando finalmente consegui sair, eu era uma menina desorientada e triste. Perdida, literalmente perdida, porque nem sequer sabia o caminho para a estação de comboios que havia de levar-me à pensão e a um banho de água quente. Mas nem o banho me aqueceu a alma. Eu supostamente não teria alma, mas ela chorava dentro de mim, desalentada.
Horas mais tarde, de regresso de um jantar em casa de amigos, sentindo-me quase louca, desabafei com a Sara, que veio trazer-me a casa. E ela ajudou-me muito, porque me ajudou a pôr em palavras isto que agora consigo escrever. Antes era apenas um emaranhado de soluços, inaudíveis do lado de fora do meu coração.
Quando me deitei, minutos depois de me despedir da minha amiga, eu disse ao deusito ranhoso: Não quero mais conversas contigo.
Chamei o meu Deus para junto de mim, e Ele disse que tinha estado lá sempre, só à espera que eu me acolhesse nos Seus braços para me limpar as lágrimas.
O dia seguinte foi de pura alegria infantil.
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