domingo, junho 20, 2010

Who am I?

Sempre me habituei a que as pessoas me vissem como uma pessoa muito doce, suave...
Triste também.
Penso que por causa dessa tristeza e da dor que me traz, fui mudando ao longo dos anos. Mudei muito.
Nos últimos anos tenho descoberto cá dentro uma raiva profunda, que sai em catadupa nos momentos menos oportunos. Não tenho controlo sobre mim nessas alturas. Uma coisa vulgar e sem importância pode desencadear uma tempestade emocional violentíssima, agressiva para mim e para os outros. Depois, quando me acalmo (e apenas sozinha me acalmo), penso que nada daquilo faz sentido, que a minha violência é absolutamente desproporcional aos motivos por que surge. E arrependo-me. Se me arrependo! Choro. Fico cansada, fisicamente cansada, como se me tivessem batido.
Ontem passou por mim uma ventania assim. Ou fui, eu própria, uma ventania assim. Hoje, de novo, um momento apenas antes de cair em mim e me crucificar por ser tão impulsiva e impaciente.
E então, lembrei-me de um tempo muito lá atrás, quando eu era menina, em que reagia como agora. Mas pior: quando me passava dos carretos, fazia coisas que não lembravam ao diabo. Atirar com o que quer que fosse à cara de quem me chateava; uma espiga de milho, uma sardinha assada, ou um alguidar de água. Uma vez empurrei uma amiga dum muro abaixo: tive sorte porque ela não se magoou. Passada a explosão, chorava de arrependimento, sempre.
Agora, quarentona, respeito a integridade física dos outros, mas sou à mesma tão violenta!
Gostava de me perceber, porque se me percebesse talvez me pudesse libertar disto.
Tenho que gostar de mim com tudo o que sou, mas tenho muita vergonha destas cenas que faço. Muita.

10 comentários:

deep disse...

Compreendo a tua mágoa. Tantas vezes me penalizo por não conseguir ser a pessoa doce que as pessoas começam por ver em mim. Não chego a esses "atentados" físicos de que falas, mas consigo, muitas vezes, ser agressiva quanto baste nas palavras - ainda estou a proferi-las e já me arrependi. Apesar de tudo, sinto, muitas vezes, que não devo penalizar-me tanto por ser como sou - afinal, quem não tem defeitos? Talvez seja bom, de vez em quando, fazer uma lista das qualidades. :)

Bom domingo.

Dulce disse...

Deep, os atentados físicos ficaram lá atrás, na infância. Não sei precisar a idade que teria, mas foi algures entre os 6 e os 10 anos. Agora também é apenas por palavras que sou agressiva. E no olhar, que dizem que chispa... :)

Ana disse...

Não há que ter vergonha, porque não é defeito, é feitio. E todos nós temos alguma coisa que gostamos menos e às vezes os outros também podem gostar menos ou então apreciar-nos por essa mesma característica (por muito estranho que possa parecer). Mas os "outros" nem sequer são para aqui chamados...Toda a gente explode de vez em quando e quem está à frente leva por tabela, mesmo que às vezes não mereça. A única coisa que há a fazer é saber pedir desculpa. Não se volta atrás com o que se disse ou fez, mas apazigua. Falo por mim, pelo que faço e pelo que me fazem. E pior do que alguém reagir comigo de forma impulsiva e falar "da boca para fora" para depois se arrepender, pior do que isso é não terem a humildade de um "desculpa" mais tarde. E por gostar que me façam isso, tento fazer o mesmo...
Impulsiva? Nem sempre é possível morder o lábio e contar até 3! :P

(Uma das minhas melhores amigas encaixa na perfeição na tua descrição e nem por isso é das pessoas que mais gosto e admiro:) )

Ana disse...

*e nem por isso deixa de ser das pessoas que mais gosto e admiro:)

Avozinha disse...

A tua coragem em admiti-lo é já um grande passo para a capacidade de mudar. Admiro-te isso!

Vida de Praia disse...

Os sentimentos são todos bons e úteis; o problema às vezes é quando os reprimimos tempo de mais, juntando aos poucos cada vez mais lenha à fogueira ou vapor na panela de pressão, em vez de o irmos libertando com conta, peso e medida...
:-*

flor disse...

Olá Dulce, nisso acho que somos um pouco parecidas. Claro que com o tempo, aprendi a dominar-me mais... sou muito calminha, muito low profile, mas quando rebento, é melhor sair da frente. Quando era pequena era exactamente assim, não me coibia de me atirar ao primeiro que me afrontasse. Não admito por exemplo que me destratem ou faltem ao respeito e é precisamente isso que me tira do sério e ficar cega e não conseguir controlar-me. Estas atitudes tem-me trazido alguns dissabores e um deles é não ver os meus pais vai para 4 meses :(

tsiwari disse...

O gozo em dizer certas coisas baixinho, com um sorriso no olhar, de lábios abertos... de tal forma que, só muito depois, começam a pensar "mas este estava a elogiar-me ou a f#d3&-m#???" - funciona melhor.

Deixa-nos de bem connosco.

E consegue-se. Com treino, auto-controlo e treino... e mais treino.

Tenta e gostar-te-ás ainda mais. :)

Matilda disse...

É bom ler-te. Sabes que muitas mulheres sao assim, muitas mesmas... mas raras sao as que admitem ao vivo e as cores.

Geralmente justificamos as nossas acções com o erros das outras pessoas, que nos levou ao extremo... com a falta de paciencia pq temos mto em que pensar... etc...

Muitas de nós sentimos o que sentes. Muitas. Eu ando estes dias a tentar ser calma com alguem que me tira do sério e consigo ser mto calma com ela... mas depois chego a casa e tenho de desabafar tudo com o meu marido... que coitado ainda tem de me ouvir a falar sem parar depois de um dia de trabalho também...

Costumo dizer a brincar que se Deus tinha eu lugar reservado para mim no céu por estar a ajudar esta pessoa neste momento, e ser tão paciente com ela quando ela se porta como uma adolescente cá em casa... Deus também me tirou a reserva do céu de cada vez que estrago tudo queixando-me da dita ao marido.

Não ralho com o marido, nada disso... mas fazer o bem a 100% é faze-lo e depois nao ir falar mal por tras....

Estou a tentar mudar isso. A tentar deixar passar e aguentar com bom coração, pela frente e por tras. A ver vamos.

Dulce disse...

Força, Matilda! Se há coisa que aprendi é que conseguimos, por vezes, coisas superiores às nossas forças.