terça-feira, setembro 26, 2006

Mimenina

Lembro-me de ir com o meu irmão mais velho, noite escura, comprar leite a uma vizinha que tinha uma vaca.
Lembro-me de não ter medo nenhum do escuro, e de ser apontada como exemplo ao meu irmão.
Em contrapartida, tinha um medo terrível das trovoadas. Escondia-me debaixo da cama e ninguém me arrancava de lá. Lembro-me perfeitamente de me parecer, nesses dias, que o tecto do meu quarto tombava para o meu lado. Em qualquer dos lados para que eu me dirigisse. E por isso, debaixo da cama sentia-me melhor. E o meu irmão mostrou-me uma vez um pára-raios que havia na parte de trás da casa, e disse-me que aquilo impedia o raio de cair na casa. Em boa verdade, não confiei muito naquele aramezito...
Lembro-me de ir visitar a minha avó:
- Que querem vocês, meninos? - perguntava ela.
- Não é preciso nada, avó.
- Não é preciso, é pra quem morre...
Coitadinha da minha avó, que me dava bolachas de água e sal (ela era diabética) e eu escondia-as todas atrás duma sardinheira que havia encostada à parede. Não gostava mesmo daquilo...
E lembro-me de ir para cima do telhado da casa da minha outra avó, apanhar arroz-dos-telhados. Quem sabe o que é arroz-dos-telhados? Não, não se come... é uma planta que nasce nos telhados velhos e tem uns bagos verdes que parecem arroz, excepto na cor. Servia para brincarmos às cozinheiras.
E as camarinhas nas dunas, à beira mar?
E lembro-me de achar que as janelas das casas se pareciam com quem lá vivia. Eu olhava para o "rosto" das janelas e via-lhes traços do rosto dos donos ...
E na missa? Quando o padre dizia "Eis o mistério da fé" os fiéis, que estavam de joelhos, levantavam-se. Então eu achava que o padre se enganava, e ficava sempre à espera de o ouvir dizer a coisa correcta: "Eis o mistério de pé!"

E hoje estou aqui a lembrar-me disto, e já devia estar a dormir...

5 comentários:

deep disse...

Também brincava como arroz dos telhados... ainda não há muito tempo, em conversa com a minha irmã, me lembrei desse "arroz".
Boa noite. Bjs

Ana Rangel disse...

Memórias tão boas... :)

tikka masala disse...

São uma delícia, as tuas memórias. Aconselho-te vivamente a escrever um LIVRO para as dares a ler ao meio mundo que, infelizmente, não conhece o teu blog...

Dulce disse...

Lol, Tikka! Só meio mundo é que não conhece o meu blog? :))

TsiWari disse...

sobrevivemos,e, no meio de tanta memória, carregamos baterias...