terça-feira, julho 04, 2006

blogue das arrumações - post hiper-longo. Desculpem ou passem ao lado!

Aqui as gatas não conseguem aceder. :)
Andei a arrumar a caixa de cartão. E lá encontrei um relato de umas férias fantásticas, que vou deixar aqui... Mais para mim do que para quem lê, que pode não ter interesse, mas enfim. Não é à toa que toda a gente me diz que sou egocêntrica. Eu cá não me importo: se alguém tem que estar no centro, porque há-de ser outro se posso ser eu? No centro está a virtude, nunca esquecendo...

TRÁS - OS - MONTES. Agosto de 1992
9 horas, 30 minutos do dia 15 de Agosto de 1992. A aventura começaria. Desde as 8 horas que me encontrava pronta para a partida. 9 horas, 30 minutos era a hora do programa para quebrar as amarras, rumo à Terra Prometida. E a terra prometida era o vago destino sem rumo certo em que quatro cidadãs do mundo haviam de encontrar-se.
11 horas e muito minutos. Saída, com percalços, atrasos e muitos esquecimentos. Quase à chegada a Coimbra disse a Lena:
- Temos que voltar atrás, esqueci-me da saboneteira.
Mas continuámos, claro! A Céu esperava-nos em Coimbra. Almoço junto ao rio Mondego, por onde procurámos o Choupal. Estava mesmo ao lado, mas as portas estavam fechadas...
Aveiro. Feira Internacional de Artesanato. Lindas coisas. Coisas maravilhosas. E a cada uma a sua tendência. Uma era mais bolos, a outra mais mochilas, e havia ainda quem fosse mais brinquedos. Comprei um pinto com rodas e cabo, para o meu afilhado Ruben, mas o pinto já se divorciou das rodas. Não una o homem o que Deus separou.
Falando em carros, recomeço. Vejamos as características deste em que ora viajamos.
Retrato físico: branco por fora, cinzento por dentro, pneus pretos.
Retrato moral: cuidadoso com as crianças. Os vidros de trás não abrem completamente; as pequeninas vêem a paisagem sem risco de rebolar por ela abaixo.
De 15 para 16 de Agosto acampámos no parque da Costa Nova, perto de Aveiro. A 16 de Agosto acordei muito esperta e pûs-me à procura do mar. Cheirei-o, senti-o, estive decerto próxima, mas não o vi
A Cristina bebeu groselha por razões óbvias que agora não refiro. Pelas razões inversas havia eu de beber azeite, e comer granulado para coelhos. (Na referência ao segundo produto por mim ingerido, fiz uso duma metáfora da autoria da Cristina.)
De Aveiro a Vila Real (de Trás os Montes) foi um pulinho algo comprido, em que de carro viajámos, ouvindo música e observando as linhas de água, os socalcos, e as coisas simples da vida, de que a Cristina tanto gosta (os solares).
Em Vila Real acampámos ao fim da tarde do dia 16.
17 de Agosto. Saímos em direcção a umas fisgas de Ermelo, onde tivemos muita atenção. Não nos aproximámos demasiado, qualquer descuido podia ser fatal. Fatal também é o fado de Lisboa, contrariamente ao de Coimbra, que é apenas triste. Foi uma observação brilhante da Céu. A dada altura, a Cristina também falou com muita propriedade, e bem, que era bom que a Igreja se consumisse por se dar ao mundo, como a lenha se consome para aquecer os lares. A Céu reparou na beleza do dito: "Estás a falar muito bem!" Inquirida àcerca da razão do seu espanto, alegou falta de hábito.
Sem respeitar com escrúpulos demasiados a ordem cronológica dos acontecimentos, referirei ainda que a Céu andou por tortuosas e espinhosas bermas, em equilíbrio precário à beira de um quase abismo, para fugir ao perigo rodoviário. Visitámos uma aldeia lindíssima, Lamas d'Olo, onde todas as pessoas cumprimentavam toda a gente, onde eu caí como se me sentasse num poltrona, e onde as vacas estavam em amena convivência com os humanos. Amena convivência, é como quem diz. Convivência. Quando vi as quatro indefesas cidadãs do mundo dentro do carro, e de frente para elas uns animais munidos de cornos, só pude exclamar:
- Ai, que os cornos partem vidros!
E a céu, a proprietária do veículo, que se sentava ao meu lado esquerdo, imaginou-se regressando ao lar, doce lar, com um carro escavacadinho. Como explicaria ela o sucedido?
- Foram umas vacas, em sentido literal, que...
As fotografias foi vê-las gastarem-se.
Muas e a paisagem circundante é magnífica. Vimos muitas cabras, ou chibos, e vacas, as fatídicas.
À noite, já de novo no parque de Vila Real, recitou-nos a Céu um poema de Khalil Gibran ("O Vagabundo") adaptado à nossa situação histórico-geográfica:
Na margem do Cabril
ao cair da tarde,
uma vaca encontrou-se com um chibo
e pararam a cumprimenta-se.
- Como vai esse dia, meu senhor?
perguntou a vaca.
O chibo respondeu, dizendo:
- Vai mal.
Por vezes na minha dor e na minha tristeza
choro, e as criaturas dizem sempre:
- São apenas lágrimas de chibo.
Isso magoa-me mais do que se pode dizer.
A vaca disse-lhe
- Falas da tua dor e tristeza,
mas pensa em mim durante um momento.

Contemplo a beleza do mundo, as suas maravilhas e os seus milagres,
e, de pura alegria, rio-me,
como se ri o dia.
Então os habitantes de Vila Real dizem:
É apenas o riso de uma vaca.

(Nota: onde se lê vaca leia-se hiena;
onde se lê chibo leia-se crocodilo;
onde se lê Cabril leia-se Nilo;
onde se lê Vila Real leia-se selva.)

18 de Agosto. Às duas horas da madrugada, a Lena e a Céu chegaram de um banho no rio Cabril (iam ficando fora do parque de campismo). Acordei. Chovia. A Lena recolheu para dentro da tenda os apetrechos que a chuva podia "magoar", e a Cristina, a dormir, disse que não conseguia. Mas conseguiu. Ela e a Céu conseguiram dar-me cotoveladas durante toda a noite. A Lena passou por sobre as minhas pernas como se eu fora tapete. Nunca vou esquecer-me desta noite.
De manhã, manhã já alta, pagámos cada uma 750$00 para ver um solar (Casa de Mateus) - daquelas coisas simples de que gosta a Cristina, a que a sua posição de engenheira agrícola a liga. A isso, e às linhas de água, claro.
Depois, viajámos de comboio até à Régua, onde já tínhamos estado. Uma viagem que todas apreciámos muito, especialmente a Lena e a Céu, que dormiram durante a maior parte do trajecto.
E agora farei aqui uma analepse (assiste sempre ao narrador o direito de fazer analepses) para registar um facto importante que até agora me ia olvidando: no dia 16 de Agosto, a caminho de Vila Real, encontrámos uma capela que se dizia da Sra da Dúvida. Gostei muito do nome. À volta havia apenas montanhas. Gosto da dúvida, gosto das montanhas, e da fé que sabe crescer duvidando.
Só uma outra analepse: no dia 17, numa localidade de nome Feira, bebemos um café que tinha pouca arábica. (Informação da nossa consultora agrícola, Cristina.)
No preciso momento em que escrevo estas palavras, estou a ficar cansada de esperar as outras três cidadãs do mundo, que andam a visitar os monumentos de Vila Real. Eu é mais café.


A nossa vagamundagem não terminou por aqui, mas a minha vontade de passar à escrita as coisas vividas terminou. Disso me penitencio, mas cada uma agora que escreva aqui, de sua justiça e boa memória, aquilo de que se recorde. As fotografias hão-de falar de outros momentos, e alguém disse que uma imagem vale por mil palavras. Ou novecentas e noventa e nove.

1 comentário:

deep disse...

"Virtus in media est"... acho que é assim!
Só passei para deixar um beijinho.
Amanhã volto para comentário mais longo.