quinta-feira, outubro 05, 2006

Aceito o "réptil"

Esta do "réptil", li pela primeira vez no blog da Rosa e gostei muito.
O Deprofundis lançou-me um réptil, num comentário ao post anterior. Aceito. Aqui vai então a história da estrela que tinha uma vaquinha na testa:

Era aparentemente uma estrela comum. Quando nasceu, a estrela enfermeira parteira virou-a de todos os lados para se assegurar de que era perfeitinha, sem maleitas, sem pontas bicudas nem arestas. Colocou-a depois sobre o peito da Estrela-Mãe para que a amamentasse, acariciasse e lhe ensinasse a vontade de brilhar. Cresceu feliz no meio das suas amigas estrelinhas, num espaço magnífico de céu limpinho, azul claro - azul escuro, consoante a hora e a latitude donde se visse.
O problema foi quando um dia, nos seus passeios, a estrela menina desceu demais e viu o mar. Achou-o lindo! E uma onda que se julgava superior às outras subiu uns metros acima do que lhe tinha mandado o vento, que é o vento que manda nas ondas. E a onda altiva segredou ao ouvido da estrelinha, que havia estrelas do mar.
- E agora vai-te embora, que o vento está a ralhar comigo - disse-lhe ela. E desceu.
A estrela menina voltou para o céu, mas nunca mais descansou. Dormiu mal naquela noite, e dormiu mal todas as noites a seguir. Não lhe apetecia brincar com as amigas. Não tinha vontade de brilhar. Os pais chamaram o médico, e o médico fechou-se num pedacinho de céu forrado de nuvens, a conversar com a estrela pequena. E percebeu que eram as saudades do mar que a deixavam triste. Carregou-a ao colo nos seus braços brilhantes (o médico era uma estrela, claro!), deu-lhe um xarope especial feito de beijos e abraços, e foi deitá-la para que dormisse e descansasse. Depois aconselhou os pais a deixarem-na ir viver no mar. Ser uma estrela do mar. Os pais não queriam muito, porque gostavam muito da sua menina e preferiam tê-la por perto, mas percebendo que ela só seria feliz se fizesse o que o seu coração queria, deixaram-na ir.
Ela saiu do céu numa manhã de muito nevoeiro, e pelo caminho, perdeu-se. Além disso ainda não tinha aprendido as cores. Viu um grande campo verde, ao longe, e dirigiu-se para lá a correr a toda a velocidade, pensando "É o mar!". Porque ela viu verde e pensou que era azul. E como ia a toda a velocidade não teve tempo de parar quando lhe apareceu pela frente uma linda vaquinha. Era uma vaquinha pequena, andava a pastar no campo. E a estrela, mesmo sendo ainda criança, era grande. As estrelas são muito grandes, mas a nós parecem-nos pequeninas só porque o céu onde vivem é muito longe. A estrela que era muito grande bateu na vaquinha, e a vaquinha ficou colada na testa da estrela.
E então, para não molhar a vaquinha, ela já não quis ir para o mar.
Voltou para o céu, contente com aquela companhia que trazia na testa. E brilhava muito. E quando chegou ao céu todos ficaram muito contentes, as estrelas todas, e aquela vaquinha, que passou a morar no céu, na testa da estrela menina.
E nenhuma estrela se admira, quando no céu se ouve: muuuu!!!!!

10 comentários:

deprofundis disse...

Mas que maravilha de conto infantil! Que imaginação!
A Dulce deveria escrever um livro de histórias infantis como esta. Êxito garantido. Mais um réptil que lhe mando. Valeu?

Dulce disse...

Valeu, Fernando! Aceito o réptil!! :)
Já a Sara me tinha lançado esse réptil. Vou começar aa escrever as minhas historietas em http://caixinhademusica-dulce.blogspot.com.
Esta já lá está.
Tikka, ilustras?

Luís Alves de Fraga disse...

Sabe, por certo, que a imaginação criativa não é um dom comum a todos os humanos... A Dulce tem-na, porque em si continua a subsistir a menina sonhadora como só as crianças sabem sê-lo.
No outro blog já me tinha apercebido dessa potencialidade magnífica. E disse-lho.
O que espera para deixar livre a imaginação dessa criança que se abriga no corpo da mulher? Dê-lhe um computador, algum tempo e temos livro.
Fico à espera. Combinado?

Dulce disse...

Ok, Luís Alves. Combinadíssimo! Estou empenhada nisso, mesmo! Principalmente agora que com a vossa ajuda descobri o rumo que me parece mais certo: histórias infantis. Já tenho outras ideias :))

Costinhas disse...

Olá Dulce... ainda ando aqui a estas horas (a fazer tempo que o meu pestinha acorde para o alimentar :p) e quando apareceu o teu comentário na minha caixa do correio, decidi fazer uma visita.

O que eu gostei deste conto. Dou-te os meus parabéns. E já agora, com a lata de quem chega e assenta aqui arrais, posso contar esta história aos meus meninos?!

Vou voltar... sem dúvida!

(mais um ponto a favor à existência de comentários... sem eles nunca tinha lido esta história formidável! Agora vou espreitar o teu outro cantinho...)

Xuinha Foguetão disse...

Gostei muito, Dulce! Muito mesmo.

Beijocas grandes

Anónimo disse...

um MM cada vez mais valioso...safa...isto é q é escrever bem!!!

Maria

Ilhota2 disse...

Fantástica estrela!...
Parabéns

Maria disse...

um dia escrevi um conto infantil...a infantazinha e a tulipa vermelha ...mandei para um suplemento juvenil e o Mário Castrim falou dele ...qualquer dia mostro!! rsrs
Abraço da Maria

Dulce disse...

Manda para o meu email, Maria! :)
(Quero ler)